A cientista Tatiana Sampaio afirmou que um estudo revisado por pares sobre a polilaminina está prestes a ser publicado — mas não disse em qual revista científica nem quando os resultados virão a público.
A declaração foi dada à agência Reuters em meio ao debate crescente sobre o tratamento experimental para lesões na medula espinhal, que ainda aguarda comprovação de segurança e eficácia em humanos.
Da bancada ao carnaval: como a polilaminina virou assunto nacional
A polilaminina é uma proteína derivada da placenta desenvolvida para estimular a regeneração de nervos lesionados. O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultados promissores em animais e a divulgação de um estudo preliminar em 2024, impulsionado pela farmacêutica Cristália, que detém a patente e já investiu mais de R$ 110 milhões no desenvolvimento.
O interesse público se expandiu rapidamente. Pacientes de diferentes regiões do país e de outros países passaram a buscar acesso ao medicamento experimental, e dezenas recorreram à Justiça para conseguir autorização. A repercussão transformou Tatiana Sampaio em figura conhecida nacionalmente — durante o Carnaval deste ano, o cantor João Gomes a apresentou como “a maior celebridade que temos aqui hoje”.
O governo federal acompanha a pesquisa com expectativa. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, informou à Reuters que a polilaminina foi o primeiro produto analisado pelo recém-criado Comitê de Inovação da Anvisa. “Se o estudo clínico apresentar bons resultados, pode ser ofertado o mais rápido possível à população”, afirmou.
Primeiros testes em humanos e uso compassivo
Os primeiros testes com humanos incluíram oito pacientes com lesões completas na medula espinhal. Dois morreram em decorrência da gravidade dos ferimentos. Os seis sobreviventes recuperaram algum grau de controle motor abaixo do ponto lesionado. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, recuperou-se completamente e voltou a caminhar sem apoio após dois anos.
Até o momento, 84 pacientes obtiveram autorização para uso compassivo da polilaminina: 44 por decisão judicial e 40 por vias administrativas.
Comunidade científica pede cautela antes de conclusões
Apesar do entusiasmo em torno do tratamento, especialistas reforçam que ainda é cedo para afirmar que a polilaminina funciona. Marco Baptista, diretor científico da Fundação Christopher & Dana Reeve, classifica a pesquisa como inovadora e promissora, mas pondera que ela representa apenas uma entre várias abordagens experimentais em fase inicial — e que segurança e eficácia precisam ser confirmadas antes de qualquer conclusão.
A Academia Brasileira de Neurologia também defende prudência. O presidente da entidade, Delson José da Silva, afirmou que a comunidade científica deseja o sucesso da pesquisa, mas que ela precisa cumprir os critérios estabelecidos para validação científica.
Pesquisadores apontam ainda que pacientes com lesão cervical podem apresentar recuperação espontânea, o que reforça a necessidade de estudos controlados e revisados por pares para isolar o real efeito do tratamento dos casos naturais de melhora.
Tatiana Sampaio diz permanecer focada na pesquisa e confiante no potencial da descoberta. “Tem algum mérito em não desistir”, declarou a cientista.
