A proposta americana de impor tarifas de 25% ao Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 foi destaque em veículos internacionais, que apontam o mecanismo como um instrumento mais duradouro do que as medidas anteriores de Trump, barradas pela Suprema Corte.
The Guardian, New York Times, Al Jazeera e o argentino Clarín analisaram as consequências da medida para as relações comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Seção 301 como novo trunfo jurídico de Trump
O New York Times captou a virada estratégica por trás do movimento americano. O jornal destacou que a Seção 301 representa um instrumento mais duradouro nas mãos de Trump para sustentar tarifas contra parceiros comerciais — especialmente após a Suprema Corte rejeitar o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), de 1977, para impor tarifas abrangentes.
A investigação da USTR foi encerrada na segunda-feira (1°) com a proposta de tarifa de 25% com base na Seção 301 — o mesmo mecanismo jurídico que, segundo o NYT, pode recuperar parte da receita tributária perdida com a derrota na Suprema Corte.
The Guardian adotou ângulo crítico à lógica americana. O jornal britânico lembrou que os EUA já têm superávit comercial com o Brasil e que, no setor de serviços, as exportações americanas previstas para 2024 chegaram a US$ 29,6 bilhões — quatro vezes o valor das exportações brasileiras para os EUA.
O Guardian também apontou que a China é o maior parceiro comercial do Brasil há cerca de uma década, e que a Seção 301, ao contrário da IEEPA, tende a resistir a contestações judiciais — o que permite ao governo americano recuperar parte da receita tributária perdida.
O governo brasileiro rebateu as acusações com dados do próprio governo americano, contabilizando superávit de US$ 424,5 bilhões em favor dos EUA nos últimos 15 anos — o mesmo argumento levantado pelo The Guardian para questionar a lógica das tarifas.
O New York Times acrescentou que a proposta americana isentaria alguns produtos, como carne bovina, café, metais de terras raras, equipamentos aeronáuticos e certas frutas e vegetais.
Argentina, mundo árabe e a disputa política interna
A rede Al Jazeera, do Catar, ampliou o enquadramento: o Brasil não é o único alvo. China e Vietnã também estão sob investigação comercial americana. A rede destacou que as mudanças propostas pelos EUA ocorrem apesar da visita de Lula a Washington no mês passado, em meio à deterioração das relações bilaterais.
O argentino Clarín escolheu o ângulo político interno. O jornal deu destaque às críticas de Lula ao senador Flávio Bolsonaro e ao seu irmão Eduardo, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O título do Clarín resumiu a tensão: os EUA consideram impor tarifas de 25% sobre o Brasil enquanto Lula acusa os filhos de Bolsonaro de serem traidores.
Nos bastidores, Flávio Bolsonaro revelou ter pedido pessoalmente a Trump que não taxasse o Brasil — declaração que veio logo após as críticas de Lula e que o Clarín destacou como ponto central da disputa política em torno do tarifaço.
Do ponto de vista comercial, analistas citados pelo Clarín minimizaram o impacto imediato das tarifas, já que muitos produtos estão isentos. Para The Guardian, porém, o sinal mais relevante é jurídico: a Seção 301 abre caminho para que Trump aplique novas tarifas além das propostas ao Brasil, consolidando um instrumento que a Suprema Corte dificilmente conseguirá barrar.
