O Pix não enfrenta ameaça real diante das tarifas americanas — mas o Brasil perdeu uma janela de negociação por falta de empenho de ambos os lados. Essa é a avaliação do ex-diretor-geral da OMC Roberto Azevêdo, em entrevista à BBC News Brasil nesta terça-feira (3).
Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro transformam o tema em disputa eleitoral, o diplomata pede foco: o questionamento real dos EUA sobre o Pix não é sua extinção, mas o fato de o Banco Central operar e regular o sistema simultaneamente.
O que os EUA realmente querem do Pix
O relatório divulgado pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) lista o Pix entre seis temas de atrito — ao lado de corrupção, desmatamento, etanol, propriedade intelectual e plataformas digitais. Para Azevêdo, o tratamento dado ao mecanismo não é excepcional.
“Eles alegam que o problema do Pix não é o Pix em si, mas a forma como é administrado”, explica o ex-diplomata. O Banco Central opera o Pix e, ao mesmo tempo, regula empresas como Visa e Mastercard, suas concorrentes diretas. Essa dupla função é o núcleo da queixa americana — não a existência do sistema em si.
Na véspera desta entrevista, o Itamaraty declarou “profunda indignação” diante do relatório e defendeu o Pix como infraestrutura pública soberana — posição que Azevêdo relativiza ao dizer que a queixa americana não é sobre o mecanismo em si, mas sobre quem o opera. Brasil reage à investigação americana e defende o Pix de ameaça tarifária.
Tarifas retornam a 25%
Com a retomada da investigação comercial, os produtos brasileiros podem voltar a enfrentar taxas de 25% nos EUA — abaixo dos 40% vigentes antes de a Suprema Corte americana derrubá-las em janeiro, mas ainda expressivos para exportações de alto valor agregado. “Os Estados Unidos são um mercado no qual o Brasil consegue vender máquinas, equipamentos, produtos acabados e semimanufaturados”, alerta Azevêdo. “É um mercado muito especial e ele vai se fechando progressivamente.”
O encontro entre Lula e Trump em maio havia aberto uma janela de negociação com prazo até julho — mas Azevêdo avalia que os contatos desde então foram “muito incipientes” para produzir qualquer resultado concreto. Lula leva Pix, minerais e tarifas como pauta ao encontro com Trump em Washington.
Disputa eleitoral e o risco de perder o foco
A disputa política tem como pano de fundo a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca na semana passada, quando o senador afirmou ter pedido pessoalmente a Trump que não taxasse produtos brasileiros — episódio que Lula usa para responsabilizá-lo pelo anúncio das tarifas. Flávio Bolsonaro diz ter pedido a Trump para não taxar o Brasil.
Para Azevêdo, o embate é compreensível em ano eleitoral, mas perigoso. “Quem vai pagar a conta desse atrito serão as empresas brasileiras e os trabalhadores que vão, possivelmente, perder o emprego”, afirmou. Ele recusa atribuir culpa direta a Lula ou a Flávio e direciona a responsabilidade maior a Donald Trump: “Foi ele quem tomou a decisão de adotar essas medidas para reindustrializar os Estados Unidos.”
Sobre retaliação brasileira, Azevêdo é taxativo: só a China teve capacidade de fazer os EUA reverem sua estratégia, e o Brasil não tem esse peso geopolítico. Quanto à OMC, o caminho existe, mas sem efetividade real — o mecanismo de solução de controvérsias está inoperante e não produzirá resultado jurídico concreto no curto prazo.
