A decisão americana de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras tem um ponto de partida claro: uma conversa entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump no Salão Oval.
O encontro aconteceu um dia antes do anúncio formal pelo Departamento de Estado. Trump perguntou ao senador quais eram as principais demandas do grupo — e a classificação das facções como terroristas foi apresentada como prioridade imediata.
O que foi dito no Salão Oval
Flávio Bolsonaro apresentou um diagnóstico sombrio da segurança pública brasileira durante o encontro. Afirmou que o governo Lula seria conivente com organizações criminosas e que as facções manteriam conexões com grupos terroristas internacionais.
Os interlocutores citaram estimativas de que cerca de um quarto do território brasileiro estaria sob influência do crime organizado — dado que teria provocado surpresa visível em Trump, que questionou se o Brasil ainda mantinha controle sobre seu próprio território.
Em resposta, os participantes admitiram a gravidade da situação e afirmaram que o problema seria ainda mais crítico do que o enfrentado pelo México — comparação que reforçou a urgência do pedido.
A reunião de terça-feira (26) foi descrita nos bastidores mais como sessão de fotos do que como diálogo político de peso, mas seu resultado prático foi concreto: a classificação foi anunciada pelo Departamento de Estado na quinta-feira (28), sem que o governo Lula fosse informado com antecedência — apesar de Brasília ter atuado nos bastidores para tentar barrar a medida.
Articulação interna e resistência de Rubio
A decisão não foi tomada de surpresa nos corredores de Washington. A proposta de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas já circulava internamente no Departamento de Estado havia algum tempo, impulsionada por integrantes do governo americano alinhados ao bolsonarismo — entre eles Christopher Landau e Darren Beattie.
A resistência inicial à medida partiu do senador Marco Rubio, que vinha freando o avanço da proposta. Trump não se manifestou publicamente sobre o tema após o encontro, e a decisão foi comunicada pelo Departamento de Estado sem qualquer declaração presidencial direta.
A imprensa internacional chegou à mesma conclusão: o New York Times descreveu a decisão como resultado de “meses de lobby agressivo” da família Bolsonaro junto à administração Trump — narrativa que consolidou o papel central da articulação política nos bastidores para que a medida saísse do papel.
