A China tomou posição sobre a designação americana das facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas: Pequim defende que nenhum país deve interferir nos assuntos internos de outro.
A declaração foi feita nesta sexta-feira (29) por Mao Ching, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, em resposta a questionamentos sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar as duas facções como “Terroristas Globais Especialmente Designados”.
A medida americana integra uma estratégia mais ampla de aplicar a Doutrina Monroe no hemisfério ocidental para conter o avanço da influência chinesa — e pegou o governo Lula de surpresa: Brasília não foi avisada antes do anúncio.
A posição chinesa foi divulgada pelo Global Times, diário sob supervisão do People’s Daily, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. Ching afirmou que Pequim defende “consistentemente” a não interferência nos assuntos internos de outros países.
Paralelamente, a China confirmou a visita oficial do chanceler brasileiro Mauro Vieira ao país entre os dias 31 de maio e 2 de junho, a convite do ministro das Relações Exteriores Wang Yi — sinalizando que Brasília e Pequim mantêm diálogo estreito mesmo diante das tensões com Washington.
Doutrina Monroe e a ofensiva dos EUA na América Latina
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado integra uma ofensiva diplomática mais ampla da administração Trump. Em janeiro, o Departamento de Guerra publicou a nova Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, prevendo dominância militar e comercial “do Ártico à América do Sul”.
O documento afirma que os Estados Unidos vão “reafirmar e aplicar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental”, com foco explícito em conter o avanço chinês. O combate ao “narcoterrorismo” é peça central dessa estratégia, sintetizada no lema “paz por meio da força” — adotado por Trump desde o início do segundo mandato.
Em dezembro de 2024, a Casa Branca já havia publicado outra estratégia de política externa prevendo o reajuste da presença militar americana na América Latina para enfrentar “ameaças urgentes” no hemisfério — avaliando que a influência de alguns países sobre a região “será difícil de reverter”.
Em comunicado, o governo americano afirmou que PCC e Comando Vermelho estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”, comandando “milhares de integrantes” e responsáveis por “ataques brutais” contra policiais, autoridades públicas e civis. O secretário Marco Rubio reforçou em rede social que a atuação das facções ultrapassa fronteiras e alcança o território dos EUA.
A partir de 5 de junho, os grupos também serão formalmente designados como “Organizações Terroristas Estrangeiras” — classificação com implicações jurídicas mais severas para quem os financiar ou apoiar.
Nos bastidores, o governo Lula atuou para tentar impedir a medida. Segundo fonte ouvida pelo repórter Guilherme Balza, da GloboNews, Brasília não foi previamente informada da decisão final. O assessor Celso Amorim já havia sinalizado que cooperação internacional é “bem-vinda”, mas intervenção em segurança pública é “inaceitável” — postura que ecoa diretamente a defesa chinesa de não interferência.
O governo americano ainda citou como precedente a operação que capturou o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, acusado de chefiar o Cartel de los Soles, também classificado como organização terrorista pelos EUA.
