Uma pesquisa da London School of Economics and Political Science (LSE), publicada na revista Nature nesta quarta-feira (27), revela que mais de 10 milhões de crianças em países de baixa e média renda sofreram alguma forma de abuso sexual digital no período de um ano.
O estudo analisou dados de quase 12 mil adolescentes entre 12 e 17 anos em 12 países da África e do Sudeste Asiático e constatou que uma em cada seis crianças que acessam a internet nessas regiões já foi vítima de violência sexual facilitada pela tecnologia.
Liderado pela pesquisadora Sakshi Ghai, o levantamento é parte do projeto Disrupting Harm e abrangeu nações como Etiópia, Quênia, Namíbia, Filipinas, Uganda, Tailândia e Vietnã. Os autores alertam que os números reais podem ser ainda maiores: estigma, medo de repercussões sociais e a própria natureza do abuso levam muitas vítimas a não reportar durante a coleta de dados.
Meninos e meninas igualmente em risco
Uma das descobertas mais impactantes contradiz padrões estabelecidos sobre violência sexual. No ambiente digital, a prevalência entre meninos (16,9%) e meninas (17%) é quase idêntica — ao contrário do abuso físico, onde as meninas concentram a esmagadora maioria dos casos. O dado desafia percepções consolidadas pelo Atlas da Violência 2026: enquanto no mundo físico 86,9% das vítimas de violência sexual são do sexo feminino, no ambiente digital essa distinção praticamente desaparece.
A forma mais comum de violência reportada foi o recebimento de imagens sexuais não solicitadas, afetando cerca de 10% dos jovens usuários de internet. O estudo categorizou o abuso em nove tipos diferentes, que variam de comentários sexuais a extorsão.
Disparidade entre países
A incidência variou drasticamente entre os países pesquisados. As Filipinas registraram a taxa mais alta, com 29% dos jovens usuários afetados. Uganda ficou logo atrás, com quase 28%. Já o Vietnã apresentou a menor taxa estimada, de 5,5% — o que pode refletir tanto uma diferença real na incidência quanto variações no padrão local de denúncia.
O silêncio das vítimas é um dos achados mais alarmantes da pesquisa: 51% nunca revelaram o abuso a ninguém. Entre os que permaneceram calados, 37,6% não sabiam onde buscar ajuda; 19,6% relataram vergonha; e 14,2% não consideraram o episódio sério o suficiente para reportar.
Quando decidem falar, as crianças recorrem quase exclusivamente a amigos — 46% das vítimas. Os canais formais são praticamente ignorados: apenas 9% procuraram professores e somente 3% buscaram a polícia.
O paradoxo da idade e o papel dos pais
O estudo identificou um paradoxo preocupante: quanto mais velha a criança, maior o risco de sofrer abuso — e menor a probabilidade de denunciar. Adolescentes de 17 anos têm o dobro de chances de ser vítimas em comparação aos de 12, mas revelam significativamente menos.
A mediação parental ativa emerge como o principal fator de proteção. Crianças cujos pais participam da vida digital — sugerindo formas seguras de usar a internet e oferecendo apoio diante de situações incômodas — apresentam taxas de revelação muito maiores. O achado ecoa o que a juíza Vanessa Cavalieri já defende na prática: pais presentes no ambiente digital são decisivos para que a vítima rompa o silêncio, enquanto a escola — que poderia ser porto seguro — ainda falha nesse papel.
O estudo representa um marco para a literatura científica, historicamente voltada a países ricos, e reforça a urgência de políticas de proteção digital adaptadas às realidades da África e do Sudeste Asiático.