O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu a porta para uma parceria com os Estados Unidos na exploração de minerais críticos e terras raras — mas com uma condição: que Donald Trump “deixe de brigar” com o líder chinês Xi Jinping.
As declarações foram feitas nesta segunda-feira (18), durante a cerimônia de entrega de novas linhas do acelerador de partículas Sirius, em Campinas (SP). Ao lado do discurso de abertura para parcerias, Lula reafirmou que o Brasil “não abre mão da soberania” sobre suas riquezas minerais.
No início do ano, os Estados Unidos apresentaram a diferentes países uma proposta de cooperação voltada à exploração de terras raras e minerais estratégicos. O Brasil rejeitou o modelo por avaliar que ele feria princípios de soberania nacional — posição que Lula voltou a defender publicamente nesta segunda-feira.
“Pode vir chinês, alemão, americano, quem quiser, desde que tenham consciência de que o Brasil não abre mão da sua soberania”, afirmou o presidente em Campinas.
O país detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, minerais utilizados na fabricação de baterias, semicondutores, carros elétricos e equipamentos de alta tecnologia — setores em disputa acirrada entre as grandes potências na corrida pela transição energética.
A proposta do governo rompe com a lógica tradicional das commodities: Lula quer que o processamento e a industrialização dos minerais críticos aconteçam dentro do Brasil, para gerar desenvolvimento tecnológico, agregar valor à produção e ampliar a riqueza produzida no país — não apenas exportar matéria-prima bruta.
Quando se reuniu com Trump na Casa Branca há pouco mais de dez dias, Lula já havia comunicado ao presidente americano que o Brasil trata minerais estratégicos como questão de soberania — e deixou aberto o convite a investidores americanos, chineses e europeus, com condições claras. Na ocasião, o petista disse ao norte-americano que os EUA pararam de investir no Brasil e que esse espaço foi ocupado pela China.
O marco regulatório aprovado pela Câmara às vésperas do encontro Lula-Trump, que aguarda votação no Senado em maio, é justamente o instrumento que condiciona incentivos fiscais ao processamento dos minérios dentro do território nacional — exatamente o modelo defendido pelo presidente nesta segunda-feira.
No mesmo evento em Campinas, Lula aproveitou para tocar em outro eixo estratégico: a formação de profissionais qualificados para ciência e tecnologia. O presidente criticou a tendência de jovens escolherem cursos de graduação guiados apenas pela demanda imediata do mercado de trabalho.
“Não podemos continuar deixando que o mercado determine o curso que o jovem faz. Muita gente que estuda medicina não é pra trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS), mas pra abrir uma clínica e ganhar muito dinheiro”, afirmou Lula.
Para o presidente, cabe ao Estado identificar as necessidades do país e orientar a formação de profissionais em áreas estratégicas — um argumento ligado diretamente à ambição de industrializar os minerais críticos no território nacional, o que exige engenheiros, cientistas e técnicos especializados.
A cerimônia do Sirius, complexo científico do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em Campinas, foi o cenário escolhido por Lula para sinalizar que o Brasil quer ser protagonista na cadeia de valor da transição tecnológica global — não apenas fornecedor de matéria-prima.
