A decisão que autorizou a prisão de Henrique Moura Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, revela que ele não interrompeu os repasses financeiros à rede criminosa investigada mesmo depois de deflagradas as primeiras fases da Operação Compliance Zero.
Mensagens extraídas do celular do operador Marilson Roseno da Silva indicam que Henrique continuava enviando R$ 400 mil mensais para sustentar o grupo conhecido como “A Turma” — célula responsável por intimidar pessoas, monitorar alvos e obter dados sigilosos de forma ilegal.
O documento aponta ainda que, além dos repasses, Henrique seguiu demandando informações confidenciais sobre um inquérito policial no qual ele próprio havia sido intimado a depor.
Nas trocas de mensagens analisadas pela investigação, Marilson cobrou pagamentos mensais atrasados e Henrique respondeu que enviaria os R$ 400 mil. A movimentação teria ocorrido mesmo após as fases da operação deflagradas em novembro de 2025 e janeiro de 2026 — o que os investigadores interpretam como evidência de que a estrutura criminosa permanecia ativa.
Os R$ 400 mil mensais que Henrique seguia repassando sustentavam “A Turma”, célula responsável por monitoramento clandestino e coerção de alvos — cuja estrutura interna a PF detalhou na mesma operação. ‘A Turma’ e ‘Os Meninos’: entenda como a PF mapeou a divisão interna do grupo de Vorcaro.
Consultas ilegais ao sistema da Polícia Federal
Para obter as informações sigilosas demandadas, integrantes da organização mobilizaram policiais e delegados para realizar consultas indevidas no e-Pol, sistema eletrônico interno da Polícia Federal.
A delegada Valéria Vieira Pereira da Silva e o agente federal aposentado Francisco José Pereira da Silva são apontados nos autos como os responsáveis por acessar o sistema e repassar a Marilson dados reservados sobre o inquérito que envolvia Daniel Vorcaro. Ambos já haviam sido identificados pelo Tropiquim como peças centrais da estrutura de espionagem montada dentro da própria PF. Saiba quem são os aliados da Polícia Federal na rede de Vorcaro.
O policial federal da ativa Anderson Wander da Silva Lima é descrito na representação como um “braço” de Marilson dentro da corporação. Segundo o documento, ele realizava ou articulava consultas indevidas em sistemas internos da PF e repassava os dados obtidos a Marilson, que os utilizava em benefício de Daniel Vorcaro, Felipe Mourão e outros integrantes do grupo.
Em um dos episódios detalhados na decisão, Marilson pediu com urgência que Anderson verificasse se um inquérito tratava de crime financeiro envolvendo Daniel Vorcaro e solicitou todos os dados disponíveis sobre o procedimento. Anderson teria repassado a demanda a outros três colegas e enviado capturas de tela com as respostas recebidas.
Para a investigação, o episódio reforça a conclusão de que Henrique Vorcaro continuava a recorrer à estrutura criminosa mesmo após o avanço das fases da Compliance Zero — o que pesou na decisão de decretar sua prisão preventiva. Henrique foi preso nesta manhã em Nova Lima durante a 6ª fase da operação, que também cumpriu sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Veja os detalhes da 6ª fase da Compliance Zero.
