A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva, muda de nome — e a razão é incômoda: o nome antigo estava errado.
Publicada nesta terça-feira (12) na The Lancet, a mudança foi aprovada por um consórcio internacional com 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes. A condição passa a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).
A troca não é cosmética. Ela reflete o que décadas de pesquisa revelaram: a síndrome vai muito além dos ovários.
Por que o nome estava errado?
O termo “policísticos” induzia ao erro clínico. Ele sugeria que a síndrome fosse causada por cistos patológicos nos ovários — estruturas anormais que, na prática, não caracterizam a condição. O que o ultrassom detecta são múltiplos folículos pequenos com desenvolvimento interrompido, não cistos no sentido médico do termo.
Mais do que imprecisão técnica, o nome tinha consequências reais: médicos e pacientes associavam a síndrome a uma questão puramente ginecológica, ignorando seu impacto hormonal, metabólico, dermatológico e psicológico. O resultado é alarmante: até 70% das mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico, segundo o artigo publicado na Lancet.
Uma síndrome de múltiplos hormônios
O novo nome incorpora o termo “poliendócrina” porque a condição envolve, simultaneamente, alterações em insulina, androgênios, hormônio luteinizante (LH) e hormônio antimülleriano (AMH). A resistência à insulina está presente em aproximadamente 85% das pessoas com a síndrome — inclusive em 75% das mulheres magras.
Esse mecanismo piora a produção de androgênios e conecta a SOMP a riscos como obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, pressão elevada, gordura no fígado e maior risco cardiovascular. No dia a dia, os sintomas mais visíveis são ciclos menstruais irregulares, dificuldade para engravidar, acne, aumento de pelos no rosto e no corpo, queda de cabelo androgenética e ganho de peso. A condição também está associada a taxas mais altas de ansiedade e depressão, agravadas pelo estigma e pela demora para receber um diagnóstico.
Brasil na mesa de negociação
O Brasil participou do processo por meio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). A endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da UFRGS, representou o país no Global Name Change Consortium — grupo que consolidou mais de 14 mil respostas em pesquisas globais para embasar a decisão.
Para Spritzer, a mudança deve ter reflexos além do consultório: ela pode ampliar a visibilidade da condição em políticas públicas e no financiamento à pesquisa — área que, segundo ela, permanece subfinanciada apesar da alta prevalência da síndrome.
O que muda na prática?
Os critérios de diagnóstico e o tratamento permanecem iguais. A transição para o novo nome será gradual, ao longo de três anos, com atualização de prontuários eletrônicos, do CID — sistema de codificação adotado pela OMS em 195 países — e de diretrizes clínicas. A integração às diretrizes internacionais está prevista para a atualização de 2028.
Para mulheres com SOMP, a tendência crescente de abandonar contraceptivos hormonais exige atenção redobrada: a síndrome causa justamente ciclos irregulares — o perfil para o qual os métodos naturais de contracepção são contraindicados, segundo especialistas.
