A Organização Mundial da Saúde (OMS) admitiu nesta quinta-feira (7) que novos casos de hantavírus devem surgir após a morte de três passageiros do cruzeiro MV Hondius, que navega pelo Atlântico — mas garantiu que o surto não representa o início de uma pandemia.
O navio está a caminho de Tenerife, nas Ilhas Canárias, onde a partir de segunda-feira (11) cerca de 150 passageiros e tripulantes serão evacuados. A companhia Oceanwide Expeditions afirma que não há sintomáticos a bordo.
O MV Hondius partiu em 1º de abril de Ushuaia, na Argentina, rumo a Cabo Verde, na África. As três vítimas fatais são um casal de holandeses — o primeiro faleceu em 11 de abril, após apresentar sintomas ainda em 6 de abril — e uma cidadã alemã. Passageiros seguem hospitalizados ou sob vigilância médica nos Países Baixos, na Suíça, na Alemanha e na África do Sul.
A cepa que transmite entre humanos
A cepa identificada nos infectados é a Andes, variante do hantavírus presente na América Latina e a única conhecida com transmissão documentada de pessoa a pessoa. Não existe vacina nem tratamento específico; a infecção pode causar síndrome respiratória aguda grave.
O período de incubação pode chegar a seis semanas — razão pela qual a OMS admite que “é possível que sejam notificados mais casos”. Ainda assim, a agência classificou o risco epidêmico como “baixo”: o vírus é menos contagioso que a covid-19. “Não é o começo de uma pandemia”, afirmou Maria Van Kerkhove, responsável pela área de prevenção e preparação da OMS.
A origem do contágio permanece incerta. O casal holandês havia visitado Chile, Uruguai e Argentina antes de embarcar. O Chile foi descartado pelas próprias autoridades do país, que indicaram que o período de permanência “não corresponde ao de incubação”. A Argentina afirmou que “não é possível confirmar a origem” com os dados disponíveis até o momento.
A escala do MV Hondius na ilha de Santa Helena, entre 22 e 24 de abril, ampliou o raio de alerta. Trinta passageiros desembarcaram no território britânico de 4.400 habitantes — entre eles, os dois primeiros mortos: o holandês falecido em 11 de abril e sua esposa, que morreu em Joanesburgo em 26 de abril. As autoridades locais informaram que mais de 95% da população não teve contato próximo com pessoas do navio.
Em Singapura, dois passageiros que desembarcaram em Santa Helena foram colocados em isolamento aguardando resultados de testes. Na Europa, um francês com sintomas leves que viajou de avião com um caso confirmado também está isolado, assim como duas pessoas no Reino Unido. Um dinamarquês assintomático optou pelo autoisolamento preventivo.
Canárias recebem o navio com apreensão
O governo regional das Ilhas Canárias se opõe ao atraque e garantiu que o MV Hondius “não atracará” — ficará ancorado ao largo da costa de Tenerife. A evacuação será feita por lancha ou navio de apoio, com transporte posterior ao aeroporto de Tenerife Sul. Moradores locais ainda carregam o trauma da pandemia de covid-19. “Não era nada e depois veja o que aconteceu”, disse à AFP o aposentado Marco González, em Granadilla de Abona, localidade prevista para o desembarque.
