O Distrito Federal caminha para um dos anos fiscais mais difíceis de sua história. Com déficit projetado em até R$ 4 bilhões até dezembro, especialistas alertam que o governo pode não honrar todos os compromissos de 2026 — e acabar empurrando o problema para o próximo mandato.
A governadora Celina Leão assinou decretos de contenção, incluindo um que determina renegociação de contratos com corte de até 25%. Mas economistas avaliam que as medidas isoladas não bastam.
O diagnóstico estrutural é claro: o DF consome praticamente toda a receita arrecadada sem formar reservas, colocando a capital entre os estados com pior disponibilidade de caixa do país.
O economista César Bergo é direto: o DF não conseguirá pagar todas as despesas contratadas para 2026. O excedente será empurrado para o ano seguinte como “restos a pagar” — prática que já compromete as contas de 2027 antes mesmo das eleições de outubro.
Para o professor Renan Silva, do Ibmec Brasília, a prioridade imediata é o cumprimento rigoroso das medidas já anunciadas. “É vital que cada órgão respeite a liberação de apenas 1/12 do orçamento por mês para evitar descasamento financeiro”, afirma. Bergo aponta três frentes urgentes para 2026: corte direto de despesas, revisão de contratos e controle mensal rígido do orçamento.
No médio prazo, Silva defende reformas estruturais — a começar pela consolidação do PLDO com foco na eficiência do gasto e na redução da dependência de créditos extraordinários. Ambos convergem: sem mudanças mais profundas, o risco de atrasos a fornecedores e até de insolvência é real.
Fragilidade fiscal que vem de 2015
Um estudo do ObservaDF, vinculado à Universidade de Brasília (UnB), mostra que a crise não surgiu de repente. A fragilidade das contas públicas do DF remonta a 2015 e foi se agravando ao longo de três mandatos — de Rollemberg, passando por Ibaneis Rocha, até o atual governo de Celina Leão.
O principal problema identificado não é o endividamento — relativamente baixo —, mas o fluxo de caixa. O governo consome quase toda a receita com despesas correntes, sem margem para investimentos ou imprevistos. Em 2024, o DF registrou o quarto pior resultado do país em disponibilidade de caixa líquida entre os estados.
Essa rigidez estrutural explica por que o orçamento segue pressionado mesmo em períodos de maior arrecadação — e limita a capacidade de reação do governo diante de qualquer choque econômico.
O cenário se agrava com a crise do BRB. Estimativas ainda em conclusão apontam um possível rombo de até R$ 13 bilhões no banco, com impacto direto sobre os cofres do DF. A fragilidade fiscal da capital se aprofundou após o rebaixamento da nota Capag para C — o que já impediu o governo de usar a União como garantidora do empréstimo de R$ 6,6 bilhões que busca contratar para socorrer o BRB.
Com disponibilidade de caixa negativa e poupança corrente próxima de zero, o DF não tem margem financeira para absorver um choque patrimonial dessa magnitude, segundo o estudo da UnB.
2027 já nasce comprometido
Bergo e Silva convergem num ponto crucial: independentemente de quem vencer as eleições de outubro, 2027 tende a ser um ano fiscal muito difícil. O próximo governo herdará os restos a pagar acumulados em 2026 e uma estrutura orçamentária com pouquíssima flexibilidade.
Para mudar esse quadro no longo prazo, os economistas defendem mudanças institucionais: atuação mais criteriosa da Câmara Legislativa na aprovação de projetos, maior participação da sociedade na elaboração do orçamento e revisão do tamanho da estrutura administrativa do DF — considerada excessiva pelos especialistas.
Sem reformas estruturais consistentes, a pressão fiscal tende a se transferir de mandato em mandato, mantendo a capital federal em situação de vulnerabilidade crônica.
