Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que mais de 840 mil pessoas morrem anualmente em decorrência de riscos psicossociais no ambiente profissional — jornadas exaustivas, insegurança no emprego e assédio figuram entre os principais fatores.
O estudo foi publicado em 22 de abril, data do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho. Além das mortes, os riscos psicossociais respondem pela perda de quase 45 milhões de anos de vida saudável por ano, somando doenças, incapacidades e mortes prematuras.
O que o relatório da OIT identifica
Intitulado O ambiente psicossocial de trabalho: tendências globais e orientações para a ação, o documento mapeia três dimensões que, mal administradas, aumentam o risco de adoecimento: a estrutura do trabalho, a forma de gestão e as relações interpessoais nas organizações.
Os riscos estão diretamente associados a doenças cardiovasculares e transtornos mentais — incluindo suicídio. Ambientes que impõem jornadas excessivas, geram insegurança constante ou toleram o assédio moral desgastam o organismo de forma sistemática e progressiva.
A OIT alerta ainda para as transformações recentes no mundo do trabalho. A digitalização, o avanço da inteligência artificial e a expansão do trabalho remoto podem agravar riscos já existentes ou criar novos desafios, caso não sejam acompanhados por políticas adequadas de proteção aos trabalhadores.
Entre as recomendações do relatório estão a melhoria da organização do trabalho, o fortalecimento das políticas de saúde e segurança e o incentivo ao diálogo entre governos, empregadores e trabalhadores. Para a OIT, enfrentar as causas estruturais é o único caminho eficaz para prevenir esses riscos — e, ao mesmo tempo, fortalecer a produtividade e o desenvolvimento econômico sustentável.
O alerta global chega num momento crítico para o Brasil: em 2025, o país registrou o maior número de mortes e acidentes no trabalho de sua história, com 3.644 óbitos e 806 mil ocorrências segundo o Ministério do Trabalho — um cenário que coloca o Brasil no centro da crise de segurança ocupacional global.
Brasil na contramão: NR-1 segue sem data definida
Enquanto a OIT publica seu alerta mais abrangente sobre saúde ocupacional, o Brasil patina na implementação de uma norma básica para enfrentar exatamente esses riscos. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece o gerenciamento de riscos ocupacionais — incluindo os psicossociais —, foi adiada após pressão de entidades empresariais.
A medida estava prevista para vigorar em maio de 2025. Depois de recuar para maio de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) agora avalia um novo adiamento, sem data definida. A decisão vai na contramão do cenário real: 2025 já mostrou o custo desse vácuo regulatório, com mais de meio milhão de licenças concedidas por transtornos mentais — pior resultado já registrado no indicador, com custo bilionário aos cofres públicos.
O impasse sobre jornadas tensiona ainda outro front do debate econômico. Em março, o Banco Central apontou crescimento “modesto” da produtividade como argumento contra a redução de horas trabalhadas — enquanto a OIT já classifica as longas jornadas como risco letal à saúde, reacendendo o conflito entre agenda produtivista e proteção ao trabalhador no Brasil.
O MTE informou que ainda não tem uma definição e que deve divulgar uma posição em breve.
