O Brasil registrou em 2025 o maior número de acidentes e mortes no trabalho de sua história: 806 mil ocorrências e 3.644 óbitos, segundo levantamento da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.
Na última década, o país acumulou 6,4 milhões de acidentes, 27 mil mortes e mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos — um custo humano que cresce junto com a formalização, mas sem avanço equivalente em segurança.
Os dados foram elaborados a partir das Comunicações de Acidentes de Trabalho (CAT) registradas no INSS e no eSocial e cobrem apenas trabalhadores com carteira assinada. Mesmo com esse recorte, o volume é expressivo: entre 2020 e 2025, os registros cresceram 65,8% e as mortes, 60,8%.
O setor de saúde lidera em volume absoluto, com mais de 500 mil acidentes na década — resultado da alta concentração de profissionais e da sobrecarga das equipes, intensificada no período pós-pandemia. Os técnicos de enfermagem são os trabalhadores que mais se acidentam no país.
Caminhoneiros: mais de uma morte por dia
Quando o recorte muda para ocupação, o perfil se agrava: os motoristas de caminhão lideram as mortes com 4.249 óbitos em dez anos, média superior a uma morte diária. A construção civil também aparece entre os setores mais perigosos, com alto número de acidentes e mortalidade elevada — em obras de montagem industrial, a taxa de incidência chega a 80 mil por 100 mil trabalhadores.
Mapa desigual do risco
Sul e Sudeste concentram 68% dos acidentes e 62% das mortes, reflexo do peso industrial e dos serviços formais. São Paulo, sozinho, responde por 34,4% das ocorrências e 23,7% dos óbitos da última década.
Já no Norte e Nordeste prevalece o que o estudo chama de “letalidade oculta”: menor volume de acidentes, mas taxas de mortalidade entre as mais altas do país. Tocantins, Maranhão, Pará, Rondônia e Piauí figuram nesse grupo.
Mato Grosso representa o caso mais crítico do levantamento. O estado aparece entre os três primeiros tanto em incidência quanto em letalidade — cerca de 1 em cada 100 acidentes resulta em morte, o dobro da média nacional. O perfil econômico do estado, dominado pelo agronegócio, transporte de cargas e obras de infraestrutura, explica o risco elevado.
O crescimento da participação feminina é um dos sinais mais relevantes de mudança no perfil dos acidentes. As mulheres já respondem por 34,2% dos registros, com alta de 48% ao longo da última década, concentrada em saúde, serviços e administração pública.
Os acidentes típicos — ocorridos durante a execução do trabalho — representam cerca de 65% do total, mas os acidentes de trajeto têm ganhado peso progressivamente. Em 2020, houve um pico atípico de doenças ocupacionais, impulsionado pelo reconhecimento de casos de Covid-19 como adoecimento laboral, especialmente entre profissionais da saúde.
Para Alexandre Scarpelli, auditor-fiscal e diretor de Segurança e Saúde no Trabalho da SIT, os números reforçam a urgência de ampliar a proteção aos trabalhadores. O estudo deixa claro que a expansão do emprego formal, por si só, não reduz o risco: sem investimento em segurança, o crescimento econômico continua sendo pago com vidas interrompidas e milhões de afastamentos todos os anos.
