A safra de 2026 chegou à Serra Gaúcha com volume e simbolismo. Dois anos depois das enchentes que devastaram propriedades na região, os viticultores gaúchos colheram 905 mil toneladas de uvas — resultado acima da média histórica, segundo dados da Emater-RS.
A recuperação não veio por acaso: combinou investimento pesado em tecnologia, pesquisa com novas variedades e a resistência de quem não abandonou a terra mesmo diante de prejuízos milionários acumulados ao longo de três anos consecutivos de perdas.
Entre os produtores que viveram a catástrofe de perto está Arnaldo Argenta, de Barão (RS). Sua propriedade foi atingida por transbordamentos sucessivos entre 2023 e 2025. No auge da tragédia, em maio de 2024, toda a produção em fermentação foi destruída e máquinas ficaram soterradas pela lama. O prejuízo acumulado chegou a R$ 1,5 milhão.
“A gente vai levar cinco anos para voltar ao estágio em que estávamos, mas a gente tem muita resiliência e vai conseguir”, disse Argenta.
Tecnologia como resposta ao clima extremo
Para reduzir a vulnerabilidade às chuvas intensas, muitos produtores apostaram no sistema de cultivo coberto. A técnica protege os frutos, permite irrigação controlada diretamente no solo e reduz em até 90% a incidência de doenças fúngicas — um dos principais riscos da viticultura em regiões úmidas.
O investimento, porém, é expressivo: a implantação pode custar até R$ 450 mil por hectare, o que exige planejamento financeiro de longo prazo e acesso a crédito rural.
Outra aposta está na diversificação genética. Em Santa Teresa, a família de João Paulo Berra mantém uma área experimental com 50 variedades de uvas europeias, entre elas a Palava, originária da República Checa. Por ser precoce, a uva ajuda a escalonar a colheita e aliviar a pressão sobre o processamento industrial nos períodos de pico.
Das garrafas soterradas à edição de resistência
Nem tudo que foi coberto pela lama se perdeu. Uma família transformou o desastre em narrativa: 180 garrafas enterradas pelas enchentes foram recuperadas, limpas e relançadas como a “Edição Inundação” — acompanhadas de um poema sobre a força da terra e da água. O gesto resume o espírito de quem produz vinho na serra: a relação com o solo vai além do negócio.
A viticultura gaúcha carrega raízes profundas. O cultivo da uva na Serra Gaúcha remonta à chegada dos imigrantes italianos, em 1875. Hoje, cerca de 15 mil famílias trabalham com a cultura no estado, com 90% da produção concentrada na região serrana.
Para João Paulo Berra, que mora na cidade mas retorna à propriedade a cada colheita, manter a tradição é uma questão de “sangue nas veias” — e de honrar a quinta geração da família que plantou raízes naquele solo. A continuidade do trabalho, mesmo após as perdas, é o que define a temporada de 2026 como emblemática não só em volume, mas em significado.
