Enquanto Washington e Pequim disputam influência sobre mercados emergentes, o Brasil ocupa um lugar privilegiado — e arriscado — nesse tabuleiro. Em julho de 2025, Donald Trump assinou ordem para exportar “pacotes completos” de inteligência artificial, listando o país ao lado do Egito e da Indonésia como destino prioritário.
Ao mesmo tempo, o governo Lula mantém memorando ativo com a China e negocia acordos com Washington, enquanto bilhões em data centers da Microsoft, Amazon e Oracle chegam ao país. A diplomacia é admirável. A conta tecnológica ainda não chegou.
O modelo japonês que Washington quer replicar
Para entender o que os “pacotes completos” de IA significam na prática, o caso do Japão é revelador. Em outubro de 2025, durante visita de Trump a Tóquio, os dois países assinaram um Technology Prosperity Deal — acordo que vai muito além de hardware.
O documento inclui compromissos sobre padrões técnicos, frameworks de governança, fluxo de dados e cooperação em segurança digital. O Japão passou a integrar estruturalmente a órbita tecnológica americana, não apenas como parceiro comercial, mas como parceiro normativo. Washington quer replicar esse modelo em escala global.
A lógica da disputa é clara. A China exporta tecnologia de IA num modelo descrito por analistas como “full-stack com condições embutidas”: hardware subsidiado, software de caixa-preta e frameworks de governança que replicam o modelo regulatório de Pequim. Os EUA entenderam que competir chip a chip não basta — é preciso exportar o ecossistema inteiro e, com ele, a arquitetura normativa que o acompanha.
A contradição estrutural do malabarismo diplomático
Em 2025, Lula assinou memorando com a China para aprofundar colaboração em inteligência artificial. No mesmo período, Brasília avançava nas conversas com Washington e recebia anúncios bilionários de data centers americanos. Do ponto de vista diplomático, é malabarismo hábil. Do ponto de vista tecnológico, é uma contradição que cobrará seu preço.
O ponto central não é quem vende o chip — é quem treinou o modelo. Os grandes sistemas de linguagem e tomada de decisão que o setor público e privado brasileiro já usa foram desenvolvidos majoritariamente por empresas americanas, segundo padrões americanos, com dados que refletem realidades americanas. O viés não é necessariamente intencional. Mas é estrutural.
Agrava o quadro o fato de que o Brasil sustenta sua infraestrutura cognitiva sobre servidores sujeitos ao CLOUD Act americano — lei que autoriza o governo federal dos EUA a requisitar dados armazenados por provedores americanos em qualquer jurisdição do mundo, independentemente da localização física do servidor.
O Brasil tem cartas genuínas nessa mesa. É o maior mercado de dados da América Latina, possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo — fator decisivo para a operação de data centers — e criou o PIX, um dos sistemas de pagamento digital mais sofisticados em operação no planeta.
Mas esses trunfos têm limites políticos evidentes. O PIX já foi classificado pelo governo Trump como prática desleal de comércio, ilustrando como inovações digitais brasileiras estão no epicentro da tensão bilateral — e como autonomia tecnológica pode se tornar moeda de pressão diplomática.
No campo regulatório, o Senado brasileiro tem seguido o AI Act europeu como referência normativa. O projeto em discussão cria um sistema de governança de IA sob responsabilidade da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Na teoria, é soberania. Na prática, o discurso regulatório aponta para autonomia, mas a implementação é operada por corporações multinacionais americanas — o Brasil faz a lei, mas quem comanda a infraestrutura sobre a qual essa lei incide são outros.
O Conselho Nacional de Educação votou em abril o primeiro marco oficial para uso de IA em escolas e universidades, mas a norma incide sobre uma infraestrutura controlada por corporações estrangeiras — o que revela, na prática, o alcance real da autonomia regulatória brasileira.
A pergunta que o debate público ainda não fez com a seriedade necessária é esta: ao aceitar o pacote completo de IA americano — com seus chips, modelos, padrões de governança e obrigações de compliance — o que o Brasil abre mão? Não em termos comerciais, mas em termos de autonomia sobre decisões que, em dez anos, serão tomadas por sistemas que alguém, em algum lugar, já programou.
