O governo federal quer elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina — e pode colocar o Brasil em condição de autossuficiência no abastecimento do combustível.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou nesta sexta-feira (24) que a proposta será analisada na próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), marcada para maio. A iniciativa tem caráter excepcional e vigência inicial de 180 dias, prorrogável por igual período a critério do próprio conselho.
500 milhões de litros a menos na importação
A elevação do teor de etanol eliminaria a necessidade de importar cerca de 500 milhões de litros de gasolina por mês — volume que hoje mantém o Brasil dependente de fornecedores externos. Com a mudança, o país passaria a suprir integralmente a demanda com produção doméstica, zerando a dependência externa no combustível.
O Ministério de Minas e Energia destaca ainda um efeito secundário relevante: a liberação da infraestrutura logística hoje ocupada pela importação de gasolina. Com essa capacidade disponível, a distribuição de outros derivados — especialmente o diesel — ganharia em eficiência.
A medida integra as diretrizes da Lei do Combustível do Futuro, marco regulatório que orienta a transição energética no setor de transportes. Em agosto de 2025, a mesma lei já havia elevado a mistura de 27,5% para os atuais 30% — e agora o governo acelera o passo diante do cenário internacional.
A elevação do teor de etanol é mais um capítulo do pacote emergencial que o governo vem montando desde o início de abril — que já incluiu zeragem de impostos e subsídios — para conter os efeitos da guerra nos combustíveis, conforme detalhado pelo Tropiquim.
Guerra no Oriente Médio como gatilho
O pano de fundo da decisão é uma crise que desde março empurrou o barril do Brent para perto dos US$ 120 e levou o diesel a acumular alta de 24% no Brasil, como mostrou o Tropiquim. A instabilidade no mercado internacional de petróleo, provocada pela guerra no Oriente Médio, encareceu a gasolina em todo o mundo e pressionou os governos a buscar alternativas domésticas.
Em março, quando americanos pagavam 30% a mais na gasolina por causa do conflito, o Brasil registrou alta de apenas 5% nas bombas — vantagem estrutural que o governo agora quer ampliar com a nova mistura de etanol, como analisou o Tropiquim.
A proposta ainda precisa de aprovação formal pelo CNPE em maio para entrar em vigor. O modelo adotado — temporário e revisável — preserva flexibilidade para o governo recalibrar a política energética conforme a dinâmica do mercado de combustíveis ao longo dos próximos meses.
