A expressão “minha avó foi pega no laço” atravessa gerações de famílias brasileiras como curiosidade genealógica — mas carrega uma história de captura brutal de mulheres indígenas que dados do século 21 confirmam não ter terminado.
Entre 2014 e 2023, os registros de violência contra mulheres indígenas cresceram 258% no Brasil, acima da média nacional de 207%, segundo levantamento da Gênero e Número. Os casos de violência sexual dispararam 297%, ante 188% entre as brasileiras em geral.
O mito e a história que ele encobre
“Pega no laço”, “a dente de cachorro”, “a casco de cavalo” — os nomes variam conforme a região do Brasil, mas a narrativa é a mesma: mulheres indígenas capturadas à força e submetidas a relacionamentos com homens brancos. Para Suelen Siqueira Julio, especialista em história do Brasil Colonial e das relações de gênero, o problema não está em contar essa história, mas na leveza com que ela costuma ser compartilhada.
“É uma história que precisa ser contada com multiplicidade, precisa ser contada com crítica. Isso não é uma história da Disney, muitas mulheres foram, sim, pegas à força”, afirma Suelen. A expressão com lasso se popularizou no Sul e Sudeste, associada à figura do gaúcho em áreas de fronteira. No Norte e Nordeste, as variantes mudam de nome, mas a ideia de captura brutal permanece.
A confirmação científica veio em 2025, pela revista Science. O estudo Admixture’s impact on Brazilian population evolution and health sequenciou o genoma de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões e revelou um retrato assimétrico: a linhagem paterna é 71% europeia, enquanto a linhagem materna carrega 42% de ancestralidade africana e 35% indígena — exatamente o padrão de uma colonização em que homens brancos se apoderaram de mulheres negras e indígenas.
Suelen ressalva, porém, que seria um erro generalizar: nem toda relação entre mulheres indígenas e colonizadores foi compulsória. A pesquisadora aponta que o mito existe como narrativa de origem — não como sinônimo de mentira —, e que sua banalização apaga o sofrimento real por trás dos dados.
Violência presente, não só passado
Em 14 de abril, duas mulheres do povo Pataxó da Aldeia Xandó, no extremo sul da Bahia, foram encontradas mortas em Porto Seguro. O caso foi citado por Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em arte e cultura visual pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e pertencente ao povo Kambeba Omágua do Amazonas, como símbolo de que a violência contra mulheres indígenas não é relíquia do período colonial.
Suelen aponta uma conexão direta entre invasões de terras demarcadas e violência sexual: “Os dados são muito alarmantes e as invasões de terra permanecem. Não são casos de 1600. E essas invasões são acompanhadas de estupro.” A vulnerabilidade se estende além das aldeias: populações indígenas que migram para centros urbanos concentram-se em favelas e periferias, expostas a outros fatores de risco social.
A violência contra mulheres indígenas se insere num padrão sistêmico mais amplo: o Brasil registrou 1.586 feminicídios no ano passado e uma trend masculinista que viralizou no TikTok sob o slogan “treinando caso ela diga não” chegou a chocar a imprensa francesa — sinal de que a cultura de violência de gênero segue enraizada no cotidiano brasileiro.
Os números sobre violência sexual contra mulheres indígenas também refletem uma crise nacional: levantamento do IBGE revelou que 1,1 milhão de adolescentes brasileiros já foram forçados a ter relações sexuais — e a Região Norte, onde vivem parcelas significativas de povos originários, lidera os índices.
Para Mirna Anaquiri, o desconforto é duplo: ser abordada com relatos de “pega no laço” como tentativa de conexão afetiva e assistir ao silêncio da sociedade diante das mortes. “Desejo profundamente que outras mulheres indígenas, assim como eu, sejam relacionadas com outras questões, além de um ato de extrema violência.”