Uma trend masculinista conhecida como “caso ela diga não” dominou a imprensa francesa nesta semana, com reportagens em jornais, TVs e rádios do país. Os vídeos mostram homens agredindo manequins e bonecos de treino sob o slogan “treinando caso ela diga não”.
O caso de Alana Anisio Rosa, 20 anos, impulsionou a cobertura internacional. A jovem foi esfaqueada dezenas de vezes e espancada em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em fevereiro, após recusar flores e presentes de um homem. Ela sobreviveu após coma induzido e múltiplas cirurgias.
O jornal Le Parisien detalhou o ataque. A mãe de Alana, Jaderluce Anisio de Oliveira, afirmou que o agressor, Luiz Felipe Sampaio, 22 anos — preso em flagrante —, se inspirava em vídeos do TikTok mostrando homens atacando manequins com o slogan “treinando caso ela diga não”. O site 20 Minutes destacou que muitos desses vídeos acumularam milhares de visualizações.
Segundo a publicação, esse conteúdo pode contribuir para o aumento das violências contra mulheres no Brasil — país que registrou 1.586 feminicídios no ano passado.
Casos que chocaram o Brasil e chegaram à França
O canal France 24 recuperou dois episódios recentes. Em janeiro, um dos acusados de participar de um estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro se entregou à polícia usando camiseta com os dizeres Regret Nothing — expressão popular entre influenciadores masculinistas. O episódio se insere em uma crise mais ampla: o Brasil registrou 22.800 estupros coletivos entre 2022 e 2025.
Dois meses depois, o assassinato da policial Gisele Alves Santana, 32 anos, chocou o país. O marido, tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53 anos, foi acusado do crime. Em mensagens divulgadas pela imprensa brasileira, ele se descrevia como “macho alfa” e exigia que ela fosse “fêmea beta, obediente e submissa”.
Na rádio France Inter, a jornalista Mathilde Serrell evocou em sua crônica diária a série Adolescência, lançada há um ano com sucesso mundial, sobre um menino de 13 anos que cometeu um feminicídio após ser rejeitado por uma colega. Ela descreveu os vídeos da trend como imagens “que ficam rodando sem parar nas redes sociais” de homens que “espancam, esfaqueiam, atiram contra manequins” representando mulheres que os rejeitam. Serrell disse esperar que o caso de Alana “incite o Brasil e vários países a modificarem suas leis para lutar contra a misoginia”.
A plataforma francesa Brut deu espaço a uma mobilização contrária. Internautas postam vídeos sobre como reagir diante de uma rejeição. “Se uma mulher disser não, a melhor resposta possível é respeito”, afirma um jovem em um dos vídeos. Nos comentários, seguidores questionam a impunidade dos autores dos conteúdos. “Eles mesmos se filmam e não se escondem”, aponta uma internauta. “Estamos todos de acordo que este tipo de conteúdo é uma prova de premeditação?”, indaga outra.
PL da Misoginia sob pressão conservadora
O episódio reacende o debate em torno do PL da Misoginia, aprovado pelo Senado mas que enfrenta resistência articulada na Câmara dos Deputados, onde grupos conservadores tentam descaracterizar ou esvaziar a proposta que criminalizaria condutas misóginas como as disseminadas pela trend.
