A corrente oceânica responsável por distribuir calor dos trópicos para o Atlântico Norte vai enfraquecer muito mais do que os modelos científicos indicavam. Um estudo publicado na Science Advances em 15 de abril projeta uma desaceleração de 51% na AMOC até 2100.
A estimativa supera em 60% a projeção do IPCC, que previa queda de 32% no mesmo cenário de emissões intermediárias. A pesquisa é assinada por cientistas da Universidade de Bordeaux e do centro Inria, na França.
Como os pesquisadores chegaram a uma projeção diferente
A diferença central está na metodologia. Em vez de usar apenas simulações computacionais, os pesquisadores combinaram modelos climáticos com dados observacionais reais — temperatura e salinidade da superfície do Atlântico — para identificar quais modelos reproduzem melhor a realidade.
O resultado foi revelador: os modelos mais fiéis às condições oceânicas observadas são justamente os mais pessimistas sobre o futuro da AMOC. Em outras palavras, os cientistas estavam sendo otimistas demais nas projeções anteriores.
Parte do problema estava no Atlântico Sul. Os modelos costumavam representar a salinidade da superfície dessa região abaixo do valor real, o que tornava a circulação aparentemente mais estável do que é. Quando os pesquisadores corrigiram esse ponto com dados observacionais, o enfraquecimento projetado aumentou de forma significativa. Cerca de 47% da diferença entre as estimativas está ligada a esse fator.
Uma desaceleração de 51% se enquadra no que o IPCC classifica como “enfraquecimento substancial” da AMOC — categoria que traz consequências amplas. Entre elas: o deslocamento para o sul da zona de convergência intertropical, que alimenta a agricultura do Sahel; invernos muito mais severos e secas intensas na Europa Ocidental; e elevação adicional do nível do mar ao redor do Atlântico.
Um sistema já fragilizado — e modelos ainda incompletos
A AMOC já estava no seu ponto mais fraco em 1.600 anos, segundo estudos anteriores, e sinais de alerta de um possível colapso foram identificados por cientistas desde 2021. O novo estudo não afirma que esse colapso é inevitável neste século, mas indica que o sistema está mais próximo desse limiar do que se imaginava.
Não por acaso: um relatório da OMM divulgado em março já havia registrado que o calor armazenado nos oceanos atingiu níveis recordes — e que a taxa de aquecimento marinho mais do que dobrou desde 1960, exatamente o reservatório que a AMOC ajuda a redistribuir pelo planeta.
Há ainda um agravante nas projeções: os modelos usados na pesquisa não incorporam o derretimento da calota de gelo da Groenlândia, que também injeta água doce no oceano e pode acelerar ainda mais o processo. Os autores reconhecem essa limitação e apontam que estudos futuros devem incluir esse fator.
Em fevereiro de 2025, um estudo conjunto do serviço meteorológico britânico com a Universidade de Exeter, publicado na Nature, havia concluído que o colapso completo da AMOC neste século era improvável. O novo artigo não contradiz essa conclusão, mas mostra que o enfraquecimento será consideravelmente maior — e que corrigir os modelos climáticos é essencial para calibrar estratégias de adaptação climática com base em estimativas cada vez mais confiáveis.
