Política

Petroleiro chinês sancionado fura bloqueio dos EUA no Estreito de Ormuz

Enquanto Trump tenta estrangular as finanças iranianas, navios ignoram a interdição — e o Brent já passa de US$ 100
Bloqueio de petroleiro chinês no Estreito de Ormuz com mapa estratégico, Trump e barris de petróleo

Um petroleiro chinês sancionado pelos Estados Unidos atravessou o Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14), desafiando o bloqueio naval americano em vigor na passagem. O navio Rich Starry é o primeiro a cruzar o estreito desde o início da operação de interdição.

A embarcação transporta cerca de 250 mil barris de metanol carregados no porto de Hamriyah, nos Emirados Árabes Unidos. Tanto o navio quanto sua proprietária, a Shanghai Xuanrun Shipping Co Ltd, estão na lista negra de Washington por negócios com o Irã.

Os dados de navegação das empresas LSEG, MarineTraffic e Kpler confirmaram a travessia do Rich Starry — um navio-tanque de médio porte com tripulação chinesa a bordo. A passagem contraria diretamente a política de Trump, que pretende estancar a exportação de petróleo iraniano como pressão financeira sobre Teerã.

Segunda embarcação ignora a interdição

Outro petroleiro sancionado pelos EUA, o Murlikishan — anteriormente conhecido como MKA e com histórico de transporte de petróleo russo e iraniano — também entrou no estreito na terça-feira, conforme dados da LSEG. A embarcação vazia do tipo handysize deve carregar óleo combustível no Iraque na quinta-feira (16).

Na véspera, os EUA anunciaram o início formal do bloqueio naval aos portos iranianos, determinando que navios que tenham pago pedágio ao regime de Teerã também seriam interceptados. Leia mais sobre o início do bloqueio e a disparada do Brent.

A lógica do estrangulamento financeiro

A estratégia replica o modelo aplicado à Venezuela em janeiro: cortar receitas do governo adversário bloqueando suas exportações. O petróleo representa entre 10% e 15% do PIB iraniano — e o país exportou, em média, 1,85 milhão de barris por dia, segundo a Kpler.

Trump resumiu a lógica à Fox News: “Não vamos deixar o Irã lucrar vendendo petróleo para quem eles gostam e não para quem eles não gostam.” O objetivo declarado é permitir a passagem de “tudo ou nada” pelo estreito.

O sistema de pedágios iranianos — que pode chegar a US$ 2 milhões por navio — havia sido anunciado pelo líder supremo Khamenei como forma de reparação de guerra pelos ataques americanos e israelenses. Saiba como o Irã estruturou esse mecanismo de cobrança.

O congressista republicano Mike Turner, de Ohio, foi direto no programa Face the Nation, da CBS: o bloqueio naval é uma ferramenta para forçar a resolução do fechamento do estreito — algo que as negociações dos últimos dias ainda não conseguiram alcançar.

A estratégia, porém, pode ser uma faca de dois gumes. Ao bloquear o fluxo de petróleo pelo estreito, os EUA também comprimem a oferta global da commodity e pressionam os preços. Desde o dia anterior, o Brent — referência internacional — subiu mais de 8% e superou US$ 100 por barril, adicionando pressão inflacionária nos EUA e no restante do mundo.

China, cessar-fogo e risco de escalada

Analistas apontam que o bloqueio pode empurrar a China — principal compradora de petróleo do Golfo — a adotar postura mais ativa para influenciar o Irã em direção à negociação. A travessia do Rich Starry, com propriedade e tripulação chinesas, ilustra a disposição de Pequim em contornar a interdição americana.

O movimento ocorre em momento de extrema fragilidade diplomática. A fragilidade do cessar-fogo já era evidente antes mesmo do bloqueio: o próprio Irã havia perdido o controle sobre a localização das minas navais instaladas no estreito, o que complicou o cumprimento da trégua desde o início. Leia a reportagem sobre o impasse das minas iranianas.

No domingo, a Guarda Revolucionária do Irã advertiu que qualquer embarcação militar que tente se aproximar do Estreito de Ormuz será considerada uma violação do cessar-fogo de duas semanas e receberá resposta severa e decisiva. O regime classificou o bloqueio americano como \”ilegal\” e equivalente a \”pirataria\”.