Economia

Pesquisa revela que homens apostam escondidos das parceiras e acumulam perdas

Método das 'salas de espelho' capta relatos íntimos que nunca emergem em levantamentos tradicionais
Apostas online escondidas das parceiras: homem em sombra com smartphone iluminado, questão de gênero

Homens brasileiros apostam em plataformas de bets sem o conhecimento das parceiras — e, entre si, afirmam estar ganhando mesmo acumulando perdas. O comportamento foi captado por pesquisas qualitativas conduzidas em salas de espelho.

Nesses ambientes, pesquisadores observam, por trás de um espelho, grupos de eleitores debatendo temas do cotidiano — método que revela relatos íntimos ausentes em pesquisas tradicionais de intenção de voto.

A revelação é do cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, no podcast O Assunto desta quinta-feira (9).

O paradoxo das apostas escondidas

Em grupos formados exclusivamente por homens, participantes relatam fazer apostas online de forma individual e garantem, entre os pares, que estão lucrando. Na prática, acumulam perdas. O achado ajuda a decifrar uma contradição persistente: mesmo com melhora nos indicadores oficiais de emprego e renda, parte da população relata dificuldades financeiras crescentes.

O conceito americano de affordability — a capacidade real de comprar bens com o salário disponível — aparece nas pesquisas da Quaest para nomear esse fenômeno. “Minha renda até aumentou, mas o custo de vida associado à minha renda aumentou muito mais”, resumem os participantes. Além do patamar de preços e do endividamento, as apostas esportivas surgem como terceiro fator explicativo nas pesquisas qualitativas — e o mais recente.

Os números que confirmam o padrão

Dados quantitativos apresentados durante o episódio reforçam o diagnóstico: 29% dos entrevistados admitiram ter começado a apostar para tentar pagar contas, enquanto 27% buscavam renda extra. O dado mais crítico: entre inadimplentes, 46% apostam — incluindo quem já está com o nome negativado.

Diferenças de gênero nas dinâmicas de grupo

As salas de espelho revelam também preocupações distintas entre homens e mulheres. Nas sessões femininas, emergem temas como saúde, bem-estar da família e políticas públicas. Nos grupos masculinos, o foco recai sobre status social e segurança — o que contextualiza o avanço das apostas como tentativa de aumentar a renda ou projetar uma imagem de sucesso financeiro.

Esses relatos dificilmente aparecem em pesquisas com questionários fechados. O ambiente considerado seguro pelos participantes favorece confissões mais honestas sobre hábitos e finanças — incluindo perdas que não são contadas em casa.

O comportamento escondido nas apostas ajuda a explicar um paradoxo que a própria Quaest já havia capturado anteriormente: em março, 64% dos brasileiros diziam conseguir comprar menos do que há um ano — mesmo com indicadores oficiais de emprego e renda no azul.

A ocultação de assuntos financeiros dentro dos casais também não é um comportamento isolado. Pesquisa global revelou que 31% dos homens da Geração Z no Brasil acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido — dado que ajuda a contextualizar por que perdas em apostas ainda são sistematicamente escondidas das parceiras.

O eleitorado independente e 2026

Para Felipe Nunes, o eleitorado independente — cerca de um terço do total — é quem vai definir o resultado das eleições de 2026. São exatamente esses eleitores que aparecem nas pesquisas qualitativas relatando a combinação de otimismo econômico nos números e angústia financeira no cotidiano.

Capturar esse grupo é o principal desafio das campanhas eleitorais. As salas de espelho funcionam justamente para acessar o que esse eleitor pensa mas raramente diz em público — inclusive que aposta, que perdeu dinheiro e que não contou para ninguém em casa.

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