O número de inquéritos abertos pela Polícia Federal para apurar compra de votos passou de 117 em 2016 para 2.283 em 2024 — crescimento de quase 20 vezes em uma década.
Em dez anos, a PF iniciou mais de 7.600 investigações sobre corrupção eleitoral, média de duas novas apurações por dia. Os dados foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.
Oitenta e cinco por cento dos casos acontecem fora das capitais, em cidades do interior onde a proximidade entre candidatos e eleitores facilita a negociação de vantagens.
Do assistencialismo histórico à investigação em escala
A compra de votos não é fenômeno novo na democracia brasileira. Registros dos anos 1980 já documentavam a prática: em 1982, eleitores em Belém trocavam títulos eleitorais por cartões de Natal na casa de candidatos. Em 1986, o mercado ia de 50 cruzeiros a óculos, remédios e materiais de construção.
O que mudou foi a escala das investigações. A modernização do sistema eleitoral — com urna eletrônica e biometria — não eliminou o problema. Em vez disso, a fiscalização se intensificou e expôs a persistência da prática ao longo das décadas.
Hoje, as vantagens negociadas incluem consultas médicas, atendimento odontológico, exames oftalmológicos, sacos de cimento, botijões de gás, cestas básicas, gasolina e até caixinhas de cerveja. Promessas de empregos públicos e vagas em creches também figuram nos processos.
A concentração de casos no interior tem explicação direta, segundo a procuradora Nathalia Mariel, da Procuradoria-Geral Eleitoral: “Quanto mais localizada é a eleição, mais próximas são as pessoas e é mais fácil a negociação e o oferecimento de vantagem.” A fiscalização se torna ainda mais complexa pela dependência direta entre candidatos e as comunidades locais, onde vínculos afetivos e econômicos dificultam a instrução dos processos.
Casos no Paraná: livro com dinheiro escondido e diária de R$ 100
Dois casos investigados no Paraná ilustram a sofisticação que o crime pode alcançar. Em Goioerê, o vereador Walter Fernandes Martins usava livros de legislação com buracos entre as páginas para esconder dinheiro. Mensagens de celular revelaram que ele gerenciava pedidos de gasolina, alimentos e assistência jurídica em troca de apoio eleitoral. O mandato foi cassado pelo Ministério Público.
Em Moreira Sales, a vereadora mais votada em 2024, Priscilla Albano, foi condenada por usar a estrutura do CRAS para oferecer “diárias” de R$ 100 a famílias vulneráveis, inclusive na fila de entrega de leite. Ela e a assistente social Edina Frasson foram condenadas à cassação e inelegibilidade.
O Artigo 299 do Código Eleitoral enquadra como crime tanto comprar quanto vender o voto. A simples promessa ou o pedido já configuram a infração, mesmo sem comprovação da transação — o que amplia o alcance das investigações.
Em nota, Martins negou as acusações e afirmou ter concluído o sexto mandato enquanto os recursos tramitavam na Justiça. Os representantes de Albano e Frasson não responderam até o fechamento da reportagem.
