Um vídeo de um paciente com lesão medular que voltou a andar viralizou e desencadeou uma corrida judicial por acesso à polilaminina — substância experimental sendo estudada pela UFRJ para reverter quadros de paralisia.
Mais de 50 pessoas entraram na Justiça para receber o tratamento antes mesmo de qualquer aprovação da Anvisa. O problema: a pesquisa ainda está na fase 1 dos testes clínicos, etapa inicial focada apenas em segurança.
O que é a polilaminina e onde está a pesquisa
A polilaminina é uma substância desenvolvida pela doutora Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O estudo já passou por testes em animais e foi aplicado em um grupo de oito pacientes com lesão medular.
A Anvisa autorizou apenas o início da fase 1 do ensaio clínico — a etapa destinada a avaliar se a substância é segura para uso humano. Antes de chegar ao mercado, a polilaminina precisará cumprir ainda as fases 2 e 3, que testam eficácia e comparam o tratamento com outras alternativas.
Os resultados divulgados até agora são preliminares e envolvem apenas oito pacientes — número insuficiente para conclusões científicas robustas sobre eficácia.
Erros admitidos e revisão do estudo
A pesquisadora reconheceu publicamente falhas no pré-print do estudo — incluindo dados incorretos sobre um paciente que morreu cinco dias após o procedimento, mas aparecia no gráfico com quase 400 dias de acompanhamento. Tatiana Sampaio anunciou revisão do material, mas reforçou a eficácia da substância.
A jornalista Poliana Casemiro, repórter de ciência e saúde do g1 e mestre em divulgação científica pela Unicamp, foi ao podcast O Assunto para explicar o estado atual da pesquisa e os próximos passos do estudo clínico.
Casemiro também discutiu por que o método científico exige tanto tempo — questão central quando resultados visuais impactantes, como um paciente voltando a andar, geram pressão popular por acesso imediato a tratamentos ainda experimentais.
A corrida judicial por polilaminina expõe uma tensão recorrente na saúde pública brasileira: a demanda de pacientes por tratamentos experimentais versus os riscos de liberar substâncias sem comprovação suficiente de segurança e eficácia. Decisões que antecipam aprovações regulatórias podem comprometer o andamento dos próprios estudos clínicos.