O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco de São Paulo, afirmou nesta quarta-feira (11) que os Estados Unidos não levarão em conta a posição do governo Lula ao decidir se classificam o PCC como organização terrorista.
Investigador da facção há 20 anos e sob escolta policial há mais de uma década por ameaças de morte, Gakiya participou de reuniões com assessores do secretário de Estado Marco Rubio e retorna nesta semana para nova rodada de informações.
Seu recado é claro: o rótulo de terrorismo não fortalece o combate ao crime — pode enfraquecê-lo e ainda expor o Brasil a sanções econômicas.
Para Gakiya, classificar o PCC como organização terrorista é um erro técnico e um aceno ao discurso político. O promotor reforça que a facção é uma organização criminosa transnacional com características de máfia, e que a confusão entre as duas categorias serve à narrativa eleitoral, não ao combate real.
“O discurso político se apropriou desse tema. Parte da população acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos”, disse. “O que a gente precisa é de cooperação e atuação conjunta, não meramente uma classificação.”
Cooperação com FBI e DEA em risco
O impacto mais imediato da designação estaria na troca de dados. Hoje, o Ministério Público paulista, o FBI e a DEA compartilham informações de forma direta. Com o rótulo terrorista, esses dados passariam a ser tratados como confidenciais, transferindo a atribuição para a CIA — o que dificultaria o acesso direto dos investigadores brasileiros.
Além disso, o Brasil poderia sofrer sanções econômicas e ter acesso dificultado a bancos multilaterais como o Banco Mundial e o BID. A classificação também autoriza juridicamente os EUA a executar ações militares fora de seu território contra esses grupos — algo que Gakiya vê como intervenção sem respaldo prático.
Um levantamento do Ministério Público de São Paulo mostra que o PCC opera em ao menos 28 países, com 2.078 integrantes — a maioria dentro de presídios. O relatório tem sido apresentado a embaixadas e consulados em quatro continentes para estimular cooperação internacional no combate a crimes transnacionais.
Foi a declaração do Departamento de Estado americano classificando PCC e CV como ameaças de alcance regional que acelerou a corrida diplomática do Itamaraty e deu urgência à posição técnica defendida por Gakiya.
No plano diplomático, o chanceler Mauro Vieira telefonou ao secretário Marco Rubio pedindo que não encaminhe ao Congresso americano a proposta de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas — ao menos até um encontro presencial entre Lula e Trump, ainda sem data confirmada.
O prazo é apertado: se Rubio enviar a proposta ao Parlamento, o Congresso norte-americano tem apenas sete dias para analisá-la. O governo brasileiro quer usar a reunião presidencial para mostrar como o país tem atuado no combate ao crime organizado.
O precedente preocupa Brasília: a mesma designação terrorista aplicada ao Tren de Aragua e a seis cartéis mexicanos — que deu amparo jurídico a ações militares na Venezuela — pode agora ser usada contra o PCC e o CV.
Gakiya retorna esta semana a reuniões com representantes americanos para alinhar pautas antes de um encontro com DEA, FBI e Departamento de Estado em Boston, ainda neste mês de março.