O Departamento de Estado dos EUA afirmou nesta terça-feira (10) que vê o PCC e o Comando Vermelho como ameaças de alcance regional — declaração que, nos bastidores do governo Lula, acende o alerta sobre possíveis desdobramentos militares na América do Sul.
A nota foi divulgada primeiro pelo jornal O Globo e confirmada pela BBC News Brasil, dias após reportagem do UOL revelar que o governo Trump considera classificar as duas facções como organizações terroristas.
No domingo (8), o chanceler Mauro Vieira telefonou ao secretário de Estado Marco Rubio para tratar do tema, segundo fonte ouvida reservadamente pela BBC News Brasil.
Por que o Brasil rejeita o rótulo de terrorismo
Diplomatas e integrantes do governo Lula consultados em caráter reservado sustentam que a classificação seria tecnicamente equivocada. A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) exige que os atos sejam motivados por razões políticas, ideológicas, xenofobia ou discriminação racial e religiosa — critérios que, segundo o governo, não se aplicam ao PCC e ao CV, cuja atuação é movida por interesses econômicos, não políticos ou ideológicos.
Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, já havia rejeitado formalmente um pedido semelhante feito por David Gamble, oficial do Departamento de Estado responsável pela política de sanções americanas. Na época, Sarrubo descartou que as facções atuem como organizações terroristas.
Sobre a possibilidade de designação, Washington disse apenas que não faz previsões sobre “potenciais designações terroristas” e que os EUA estão “totalmente empenhados em tomar medidas adequadas” contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas. O Itamaraty não comentou o caso.
O argumento americano para a classificação remonta a uma audiência no Congresso dos EUA em 2018, quando a suposta aliança entre PCC e Hezbollah foi apresentada como prova de atividade terrorista — tese que segue influenciando a política de segurança da administração Trump, conforme apuração do Tropiquim.
Medo de ação militar e tensão bilateral
O principal temor nos bastidores do Planalto não é o rótulo em si, mas o que ele pode justificar. O assessor Stephen Miller defendeu, em conferência com militares latino-americanos, que cartéis “só podem ser derrotados com poder militar” — doutrina que já resultou em explosões de embarcações e na prisão de Nicolás Maduro, como noticiou o Tropiquim.
Caso Washington avance com a designação, o Congresso americano teria apenas sete dias para barrar a medida. Sem veto legislativo, ela entra em vigor imediatamente, bloqueando ativos e abrindo base legal para operações militares dos EUA contra as facções — conforme análise do Tropiquim.
O episódio ocorre em momento delicado: Brasil e EUA negociam há pelo menos dois meses um encontro entre Lula e Trump. O presidente brasileiro chegou a mencionar 16 de março como possível data, mas a reunião ainda não foi confirmada pelo lado americano.
No Congresso Nacional, parlamentares bolsonaristas defendem projeto de lei que equipara crimes de facções a terrorismo. O texto foi aprovado na Comissão de Segurança Pública da Câmara e ainda aguarda votação no Plenário e no Senado antes de ir à sanção presidencial.