Profissionais qualificados como Leandro Tenório e Felipe enfrentam o desemprego prolongado, mesmo com experiência e formação. O cenário atinge mais de 1,2 milhão de brasileiros há pelo menos dois anos, segundo especialistas, e revela desafios que vão além da falta de vagas. Preconceito, exigências crescentes e mudanças tecnológicas dificultam a recolocação, afetando saúde mental e autoestima.
Desafios para a recolocação
O desemprego prolongado impacta não só financeiramente, mas também a saúde mental dos profissionais, afirma a especialista em carreira Taís Targa. Segundo ela, a insegurança e o estigma dificultam ainda mais a volta ao mercado. “O recrutador pode pensar: por que essa pessoa está há dois anos fora do mercado?”, alerta Taís. Para enfrentar esse período, ela recomenda manter uma rotina equilibrada, cuidar da saúde mental e buscar alternativas como freelas, consultorias e projetos próprios, que devem ser incluídos no currículo.
O preconceito contra quem está fora do mercado há muito tempo é um dos principais obstáculos. Recrutadores tendem a preferir candidatos ativos, mesmo que tenham menos experiência. O ritmo acelerado do mercado, especialmente em tecnologia, exige atualização constante e experiência prática com novas ferramentas. Profissionais mais velhos enfrentam barreiras invisíveis, pois empresas buscam perfis considerados mais adaptáveis.
Histórias de persistência
Leandro Tenório, engenheiro de software, construiu carreira sólida, mas atualmente trabalha como motorista de aplicativo para sustentar a família. Mesmo com duas pós-graduações, não consegue vaga na área. “Já me candidatei para vagas de júnior, pleno e sênior. Parece que nada serve”, desabafa. Felipe, relações públicas, está há quase dois anos sem emprego formal, apesar de experiência e qualificação, incluindo estudo no exterior. Ele relata que as vagas de entrada exigem experiência que só se adquire na prática, mas as oportunidades são raras.
Contexto econômico e social
Apesar da taxa de desemprego estar no menor patamar da série histórica, mais de 1,2 milhão de brasileiros seguem sem emprego há dois anos ou mais, segundo o economista Bruno Imaizumi. Em 2021, esse grupo chegou a quase 4 milhões. Imaizumi alerta para o risco de desalento, quando o trabalhador desiste de procurar emprego por falta de perspectiva. “Você perde habilidade, deixa de ser produtivo. O medo é que essa pessoa se torne uma desalentada”, explica.
Os mais afetados pelo desemprego de longo prazo são moradores do Nordeste, mulheres, pessoas pretas e profissionais com ensino médio completo. Mesmo quem possui ensino superior enfrenta dificuldades, sobretudo se não domina tecnologias atuais ou não aceita vagas fora da área de formação. Há um descompasso entre o que o mercado exige e o que os trabalhadores oferecem, observa Imaizumi, que também critica a ideia de que “quem quer, trabalha”, ressaltando desigualdades regionais e sociais.
Estratégias para enfrentar o desemprego
Taís Targa sugere que profissionais evitem o rótulo de “desempregado” e se apresentem como em recolocação. Aceitar qualquer vaga pode ser arriscado, mas pode ser estratégico se houver planejamento. Trabalhos informais, freelas e networking são essenciais para manter habilidades e visibilidade. Valorizar outras áreas da vida, como saúde e família, ajuda a preservar o bem-estar e a motivação durante a busca por oportunidades.