Luiz Inácio Lula da Silva e Volodymyr Zelensky se reuniram nesta quarta-feira (24/9), em Nova York, após meses de negociações entre Brasil e Ucrânia. O encontro ocorreu durante a Assembleia Geral da ONU, marcando uma reaproximação em meio a tensões anteriores e mudanças na política internacional.
A reunião, solicitada pelos ucranianos, foi vista como central para reforçar o papel do Brasil no debate global sobre paz e segurança, especialmente diante do novo contexto geopolítico após a eleição de Donald Trump nos EUA.
Relações diplomáticas e contexto internacional
Quando Lula foi eleito, havia a percepção de inclinação do Brasil em direção à Rússia, o que se refletiu em oscilações na política externa brasileira. Apesar de cortejar Moscou, o país também se posicionou contra a Rússia em algumas votações na Assembleia Geral da ONU.
Segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos alterou a equação geopolítica, levando Zelensky a buscar novos apoios internacionais. Trump adotou postura isolacionista e crítica a mecanismos multilaterais, o que reforçou a importância de Lula como voz do Sul Global, capaz de dialogar com diferentes polos de poder.
De acordo com Haroldo Ramanzini, professor da UnB, o interesse de Zelensky em se reunir com Lula se deve ao peso do Brasil no cenário internacional e à posição autônoma do presidente brasileiro. “O Brasil tem uma política externa universalista e de participação ativa nas principais instâncias de governança global. Lula é uma das principais lideranças do Sul Global”, afirma Ramanzini.
Para o Brasil, o encontro representa reconhecimento internacional e reforça sua tradição diplomática. Magalhães, professor da PUC-SP, destaca que a reunião pode reposicionar o país no debate sobre paz e segurança, mesmo com capacidade limitada de influenciar o desfecho do conflito.
Desencontros e recomeço
A relação entre Lula e Zelensky foi marcada por tensões, em parte devido à proximidade histórica de Lula com Vladimir Putin. Ambos lideram países fundadores do Brics. Lula condenou os ataques russos à Ucrânia, mas foi criticado por não romper relações com a Rússia e por declarações críticas ao apoio ocidental à Ucrânia.
Durante a pré-campanha de 2022, Lula afirmou à revista Time que Zelensky “quis” a guerra e se comportava como “rei da cocada”. Em 2023, Lula voltou a criticar o incentivo à guerra, defendendo solução diplomática. Zelensky rebateu, questionando se Lula acreditava que o povo brasileiro não entendia o conflito.
Os dois quase se encontraram no G7 em 2023, mas a reunião não ocorreu. Em setembro daquele ano, tiveram um encontro considerado frio e protocolar. Nos meses seguintes, persistiram críticas mútuas, com a Ucrânia não aderindo inicialmente à proposta diplomática de Brasil e China para a guerra.
Mudança de ventos e o fator Trump
A vitória de Donald Trump em 2024 trouxe mudanças na política internacional. Trump prometeu acabar rapidamente com a guerra na Ucrânia e propôs abordagem diferente de Joe Biden, cobrando acesso americano a recursos minerais ucranianos e reaproximando-se de Putin. Isso levou Zelensky a buscar fortalecer laços com a União Europeia e outros líderes, incluindo Lula.
O ápice da tensão entre Trump e Zelensky ocorreu em reunião na Casa Branca, quando Trump acusou Zelensky de “jogar com a Terceira Guerra Mundial” e de ingratidão. Posteriormente, Trump adotou tom mais conciliador, sugerindo que a Ucrânia poderia recuperar territórios perdidos com apoio europeu e da Otan.
Nos bastidores, emissários europeus sinalizaram ao governo brasileiro o interesse de Zelensky em um encontro com Lula. O pedido formal foi feito semanas antes da Assembleia Geral da ONU, onde o encontro finalmente ocorreu.
Importância estratégica do Brasil
Para Guilherme Casarões, professor da FGV, a pressão sobre Zelensky explica a busca por Lula. O Brasil exerce liderança relevante no Sul Global, tem interlocução com China e Rússia via Brics e é visto como ator importante nas discussões multilaterais.
Casarões ressalta que críticas à postura de Lula frente à Rússia e Israel devem ser contextualizadas: o Brasil tem relação estratégica mais próxima com a Rússia, enquanto o conflito israelense-palestino tem peso histórico na projeção internacional brasileira.
O histórico de mal-entendidos entre Lula e Zelensky explica a cautela de ambos até agora, mas o novo encontro sinaliza possível recomeço nas relações e reforça o papel do Brasil no cenário internacional.