O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pediu neste sábado (23) que países do Sul Global pressionem a Rússia por um acordo de paz. O apelo foi feito durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em meio ao conflito iniciado em 2022 com a invasão russa à Ucrânia.
Zelensky ressaltou a importância de ações diplomáticas e econômicas desses países para influenciar Moscou. O presidente reafirmou estar aberto a negociações, mas criticou tentativas russas de prolongar a guerra.
Participação do Sul Global e contexto do conflito
Durante sua fala na ONU, Zelensky destacou que o Sul Global — conjunto de países emergentes da África, Ásia e América Latina, como Brasil, Índia, China e África do Sul — pode ter papel decisivo para pressionar a Rússia a negociar. Segundo ele, “é importante que o Sul Global envie sinais relevantes e empurre a Rússia em direção à paz”.
O conflito entre Ucrânia e Rússia teve início em 2022, após a invasão russa, gerando milhares de mortes e agravando a crise humanitária. Zelensky afirmou que está disponível para reuniões com o presidente russo, Vladimir Putin, mas acusa Moscou de buscar prolongar o impasse. “Vemos que Moscou está mais uma vez tentando prolongar ainda mais a situação”, escreveu Zelensky após conversar com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.
Negociações e exigências russas
Fontes da agência Reuters informam que Putin exige manter o controle de todo o Donbass, região no leste da Ucrânia, e garantias de que o país não ingressará na Otan nem terá tropas ocidentais em seu território. A Rússia controla cerca de 88% do Donbass e 73% das regiões de Zaporizhzhia e Kherson, segundo estimativas dos EUA. Moscou estaria disposta a devolver pequenas áreas de Kharkiv, Sumy e Dnipropetrovsk.
Putin também quer compromisso jurídico da Otan de não expandir para o leste e garantia por escrito de que nenhuma tropa ocidental será enviada à Ucrânia. A União Europeia já propôs uma força de paz composta por soldados europeus para garantir o fim dos combates, mas não para lutar ao lado das forças ucranianas.
Repercussão e impasses
O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia ainda não se manifestou sobre as exigências russas, assim como a Casa Branca e a Otan. Segundo o cientista político Samuel Charap, da Rand, exigir que a Ucrânia se retire do Donbass é inviável política e estrategicamente para Kiev. “A abertura à ‘paz’ em termos categoricamente inaceitáveis para o outro lado pode ser mais uma encenação para Trump do que um sinal de uma verdadeira disposição para chegar a um acordo”, afirmou Charap.
As condições russas também colidem com as declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, que afirmou ter obtido concessões de Putin em reunião recente no Alasca, incluindo o envio de tropas ocidentais à Ucrânia após a guerra e a permanência de parte do território sob controle ucraniano. O Donbass, porém, representa metade das áreas ocupadas por tropas russas atualmente.
Zelensky já declarou que não abrirá mão do Donbass, temendo que ceder a região incentive novas expansões russas. As negociações seguem travadas, com ambas as partes mantendo posições consideradas incompatíveis.