Política

Trump faz alegações falsas sobre conflitos e clima em discurso na ONU

Presidente dos EUA distorce dados sobre guerras, energia renovável, mudanças climáticas e imigração em fala na Assembleia Geral

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez nesta terça-feira (23) um discurso de quase uma hora na Assembleia Geral da ONU, marcado por alegações falsas sobre conflitos internacionais, energias renováveis, mudanças climáticas e imigração.

Trump também elogiou Lula e afirmou que os dois se reunirão na próxima semana, além de defender sua gestão e criticar o papel da ONU.

Principais alegações de Trump e checagem dos fatos

Conflitos internacionais

Trump afirmou ter encerrado sete guerras em apenas sete meses, alegando que a ONU não auxiliou nos processos. No entanto, segundo o New York Times, embora o governo americano tenha mediado negociações em conflitos como Armênia e Azerbaijão, Congo e Ruanda, Índia e Paquistão, Israel e Irã, Camboja e Tailândia, Egito e Etiópia, e Kosovo e Sérvia, nenhum deles foi definitivamente solucionado. Nos casos citados, persistem disputas territoriais, fracassos em negociações e tensões militares, evidenciando que as mediações tiveram efeito limitado.

Energia eólica na China

Trump declarou que a maioria das usinas eólicas é construída na China, mas que o país pouco utiliza essa fonte de energia. O Washington Post e a World Wind Energy Association contradizem a fala, apontando que a China lidera a produção global de energia eólica, com quase metade da capacidade mundial e operando cerca de um terço dos parques eólicos do planeta.

Mudanças climáticas

O presidente citou previsões antigas da ONU sobre catástrofes climáticas, sugerindo que não se concretizaram. Contudo, o New York Times destaca que o aumento do nível do mar e eventos extremos já afetam nações insulares, com a ONU alertando para o risco de desaparecimento de países como Tuvalu, Maldivas e Kiribati.

Ambientalistas e vacas

Trump acusou ambientalistas de quererem eliminar vacas nos EUA. O New York Times afirma não haver nenhuma evidência que sustente tal alegação.

ONU e imigração

Segundo Trump, a ONU financia a imigração ilegal, destinando US$ 372 milhões para apoiar migrantes rumo aos EUA. O New York Times esclarece que a assistência fornecida por agências como a ACNUR e o Unicef é voltada para abrigo, comida e água potável, e não para financiar deslocamentos ilegais.

Washington D.C. e criminalidade

Trump afirmou que Washington D.C. era a capital do crime nos EUA. Dados do Instituto Igarapé mostram que, em 2023, a taxa de homicídios na cidade era de 39,1 por 100 mil habitantes, inferior a outras seis cidades americanas.

Repercussão e contexto político

Durante o discurso, Trump elogiou o presidente Lula, afirmando ter tido uma ‘química excelente’ com o líder brasileiro e anunciando uma reunião entre ambos na próxima semana. O gesto foi interpretado por integrantes do Itamaraty e da ala bolsonarista como um movimento que desarma a estratégia de monopólio de interlocução com a Casa Branca.

A tensão entre Washington e Brasília aumentou após sanções impostas à esposa do juiz Alexandre de Moraes, justificadas como resposta a supostas violações de direitos ligadas ao julgamento de Bolsonaro. O ex-presidente Michel Temer, em evento em São Paulo, defendeu repensar o projeto da dosimetria e propôs um pacto entre Poderes por pacificação.

Na mesma Assembleia, Lula enviou recados a Trump, condenou ataques ao Judiciário brasileiro e criticou a anistia, reforçando que ‘democracia é inegociável’. Lula também condenou guerras e defendeu a regulação das redes sociais, citando a condenação de Jair Bolsonaro.