A Assembleia Geral da ONU de 2025, em Nova York, pode marcar o primeiro encontro entre Lula e Donald Trump como presidentes. O momento é de tensão, com tarifas de 50% dos EUA sobre produtos brasileiros e críticas mútuas. Não há confirmação de reunião bilateral, mas ambos estarão presentes no evento, acompanhado de perto por diplomatas e analistas.
Crise comercial e política entre Brasil e Estados Unidos
O possível encontro entre Lula e Donald Trump ocorre em meio à escalada de atritos entre os dois países. Em julho, Trump classificou as acusações contra Jair Bolsonaro no STF como “caça às bruxas” e, logo depois, anunciou uma sobretaxa de 50% sobre importações brasileiras. Lula reagiu chamando a medida de “chantagem inaceitável” e prometeu retaliação, regulamentando a Lei de Reciprocidade para responder a sanções estrangeiras.
As tarifas norte-americanas entraram em vigor em 1º de agosto. Em 11 de setembro, Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão, o que reacendeu críticas de Trump ao STF e levou a restrições de vistos para ministros da Corte. Lula, em artigo no The New York Times, defendeu a democracia brasileira e criticou as tarifas: “O aumento tarifário imposto ao Brasil neste verão não é apenas equivocado, mas ilógico. Os Estados Unidos não têm déficit comercial com o nosso país, nem enfrentam tarifas elevadas aqui. Pelo contrário: acumulam um superávit de mais de US$ 400 bilhões nos últimos 15 anos.”
Em entrevista à BBC News Brasil, Lula afirmou que não tem “problema pessoal com o presidente Donald Trump” e que, caso o encontre, irá cumprimentá-lo: “Porque eu sou um cidadão civilizado. Eu converso com todo mundo, eu estendo a mão para todo mundo.” Celso Amorim, assessor da Presidência, disse à CNN que um encontro formal não está nos planos, mas “nada é imutável”.
Historicamente, o Brasil abre os discursos na Assembleia Geral da ONU. Fontes próximas à delegação brasileira afirmam que há uma antessala para os presidentes, mas não há garantia de que se cruzarão.
Expectativas e análises sobre o encontro
Especialistas avaliam que um diálogo real entre os presidentes é improvável. Paulo Velasco, professor da Uerj, destaca que as posições firmes de ambos impedem negociações: “O Brasil está defendendo sua soberania e repelindo qualquer forma de ingerência externa indevida, enquanto o governo Trump acredita estar agindo corretamente, considerando que o Brasil faz uma ‘caça às bruxas’, para repetir o termo usado por ele.” Velasco lembra que Lula evitará situações constrangedoras, citando episódios anteriores, como o encontro tenso entre Trump e Zelensky na Casa Branca.
Matias Spektor, da FGV-SP, acredita que qualquer contato será apenas formal: “Eles estarão na sala de espera antes de subir ao pódio da Assembleia Geral e podem nem sequer se falar. Não haverá tempo nem equipes preparadas para negociações substantivas. O máximo que se poderá observar são sinais sutis, como a linguagem corporal ou um cumprimento rápido.”
Spektor também avalia que os discursos terão foco doméstico: “O púlpito da Assembleia Geral é usado para falar com os eleitores, não com outros países. Lula deve centrar o discurso na soberania, no livre comércio e nas instituições internacionais, com tom crítico ao que o Trump vem fazendo. Já Trump provavelmente falará sobre o radicalismo da esquerda e mirando sua base eleitoral nos EUA.” Ele conclui que a Assembleia define o tom político global, mas não é espaço para negociações.