O julgamento de Jair Bolsonaro e outros sete réus por tentativa de golpe no Brasil ocorre sob forte influência do ex-presidente americano Donald Trump. Especialistas apontam que a retórica e ações de Trump inspiraram estratégias do grupo de Bolsonaro para contestar as eleições de 2022.
O processo, previsto para começar em 2 de setembro no STF, pode trazer consequências políticas e jurídicas graves, além de afetar as relações Brasil-EUA. A atuação de Trump e sanções americanas ampliam a dimensão internacional do caso.
O fator Trump e a crise diplomática
O julgamento de Jair Bolsonaro pelo STF ocorre em meio a uma crise crescente entre Brasil e Estados Unidos. A influência de Donald Trump é sentida desde as ações do ex-presidente americano após as eleições de 2020, que serviram de modelo para Bolsonaro e aliados contestarem o resultado das eleições brasileiras de 2022. O processo envolve outros sete réus, incluindo generais e ex-ministros, todos acusados de integrar um núcleo que teria tentado subverter o resultado eleitoral.
O apoio de Trump se manifesta em declarações públicas e medidas econômicas, como tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e sanções contra ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes. O governo americano também revogou vistos de autoridades brasileiras e abriu investigações comerciais sobre práticas digitais e de pagamentos no Brasil, ampliando o desgaste bilateral.
Atuação internacional e pressões
Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, buscou apoio nos EUA, documentando encontros e defendendo anistia para aliados. Integrantes do governo Trump e parlamentares americanos pressionaram por sanções contra Moraes, alegando violações de direitos humanos. O próprio Trump classificou o julgamento de Bolsonaro como “caça às bruxas” e criticou decisões do STF sobre bloqueio de redes sociais.
Essas ações resultaram em sanções baseadas na Lei Magnitsky e restrições de entrada para autoridades brasileiras. O Escritório do Representante Comercial dos EUA acusa a Justiça brasileira de censura e favorecimento de empresas nacionais, enquanto Trump ameaça novas tarifas a países com regulações digitais consideradas discriminatórias.
Repercussão interna e expectativas
Especialistas como Luciana Veiga (UNIRIO) e Silvio Cascione (Eurasia Group) avaliam que o apoio de Trump, longe de fortalecer Bolsonaro, tem prejudicado sua imagem interna. Pesquisas Genial/Quaest indicam aumento da percepção do envolvimento de Bolsonaro no plano golpista (52%) e apoio à prisão domiciliar (55%). A divulgação de áudios e mensagens entre Bolsonaro e aliados sobre tarifas e anistia reforçou a narrativa negativa, levando a acusações de coação de autoridades.
Apesar disso, a base mais fiel do ex-presidente mantém apoio, enquanto eleitores de centro e esquerda se mostram mais críticos. O cenário político se ajusta, com partidos calculando os custos de defender Bolsonaro diante da opinião pública.
Consequências de eventual condenação
Há expectativa de condenação dos réus, o que pode gerar novas retaliações dos EUA, como sanções adicionais ou aumento de tarifas. Cascione aponta que a pressão americana pode influenciar decisões futuras, inclusive sobre possível indulto presidencial para Bolsonaro, tema já debatido por aliados e familiares, como Flávio Bolsonaro.
O indulto depende do presidente da República, mas já foi anulado pelo STF em outros casos. Com eleições presidenciais em 2026 no horizonte, pesquisas AtlasIntel/Bloomberg mostram Lula à frente, mas nomes do campo bolsonarista permanecem competitivos.