Economia

Governo propõe multa de até 100 do faturamento para hotéis que praticarem preços abusivos na COP30

Documento do governo federal sugere sanções rigorosas para conter alta nas tarifas de hospedagem durante conferência em Belém

O governo federal elaborou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) propondo multas de até 100% do faturamento a hotéis que praticarem preços abusivos durante a COP30 em Belém. A medida, que nunca foi assinada, previa adesão voluntária e buscava evitar judicializações, mas enfrentou resistência do setor hoteleiro local e segue sem acordo formalizado.

O TAC circula entre órgãos do governo desde abril, mas até o momento não foi efetivado, enquanto um processo administrativo para apurar abusos segue em andamento.

Proposta do governo e impasse com setor hoteleiro

O governo federal buscou conter a alta dos preços de hospedagem na COP30 por meio de um TAC preventivo, elaborado pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), Ministério do Turismo e Secretaria Extraordinária para a COP30 (Secop). O documento previa adesão voluntária e validade até novembro, período da conferência da ONU sobre mudanças climáticas em Belém. Entre os compromissos, estava a exclusão de anúncios com preços abusivos e o estabelecimento de multas, que inicialmente eram de R$ 10 mil por infração e, em versões posteriores, chegaram a 10% do faturamento bruto anual, podendo dobrar em caso de reincidência, até o limite de 100%.

Apesar de anunciado como solução consensual em abril, o TAC nunca foi assinado. Em junho, o setor hoteleiro do Pará discordou do texto, alegando inconstitucionalidade. “Recebemos a minuta e respondemos que ela era inconstitucional, por isso não iríamos prestar nenhuma informação”, afirmou Antônio Santiago, presidente da ABIH-PA. O setor passou a negociar diretamente com o governo estadual, firmando acordo para garantir 500 quartos para delegações de países em desenvolvimento, com diárias entre US$ 100 e US$ 300.

Processo administrativo e reações

Paralelamente, a Senacon abriu processo administrativo contra 24 empresas para apurar possíveis abusos e crimes contra a economia popular. Apenas uma não respondeu aos questionamentos. O órgão reforçou que os princípios do contraditório e ampla defesa estão assegurados e que, se necessário, poderá encaminhar indícios de infrações ao Cade ou ao Ministério Público.

O setor hoteleiro reagiu negativamente às notificações, classificando-as como abusivas e alegando tentativa de intervenção indevida na atividade privada. O sindicato Shores afirmou que cada hotel tem autonomia para definir preços e se recusou a fornecer dados, citando sigilo contratual. Plataformas como Booking.com e Airbnb também alegaram não interferir nos preços, ressaltando que as tarifas são definidas por parceiros e anfitriões.

Detalhes das negociações e repercussões

O TAC, apresentado como instrumento extrajudicial para evitar judicializações e garantir tarifas justas, previa que plataformas digitais como Booking.com e Airbnb retirassem anúncios com preços considerados abusivos. A participação seria voluntária, mas, uma vez aceita, teria efeito vinculante. O Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e Ananindeua (Shores) e a ABIH-PA resistiram à proposta, alegando falta de ingerência sobre tarifas e criticando a base das notificações.

Em julho, a Senacon e a Secop informaram que o TAC seguia em discussão, mas o processo está paralisado. O governo do Pará firmou acordo técnico para garantir hospedagem a delegações, enquanto a Defensoria Pública do Pará notificou plataformas digitais para conter abusos, articulando-se com Procon, Ministério Público e Procuradoria-Geral do Estado. Segundo Cássio Bitar, defensor público, o abuso é caracterizado quando diárias superam três vezes a média da alta temporada.

Especialistas e consequências legais

Especialistas como Luciane Moessa e Felipe Lima destacam que o TAC é legítimo e pode evitar sanções futuras, mas sua eficácia depende de adesão e respeito à legislação. Caso comprovados abusos, hotéis podem ser obrigados a reduzir preços, sofrer multas proporcionais, cassação de registros ou até interdição. Em situações graves, pode haver responsabilização criminal por formação de cartel. A Defensoria Pública sustenta que plataformas têm responsabilidade sobre anúncios, com base em decisão recente do STF.

Apesar dos esforços, nenhuma versão do acordo foi formalizada, e o setor hoteleiro mantém resistência às exigências do governo federal, preferindo acordos locais para garantir a realização da COP30 sem judicializações.

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