Economia

Trump impulsiona uso da economia como arma geopolítica e Brasil pode sair prejudicado

Nova era de geoeconomia coloca o Brasil em posição vulnerável diante de tarifas dos EUA e crise na OMC

A ascensão da geoeconomia ganha força com medidas recentes dos EUA, lideradas por Donald Trump, que intensificam o uso de instrumentos econômicos como armas políticas. O Brasil está entre os países mais afetados, diante de novas tarifas e de um cenário global de instabilidade comercial.

A crise da OMC e a disputa entre China e EUA pressionam o Brasil a tomar decisões estratégicas, rompendo com a tradicional postura de neutralidade. Especialistas apontam riscos e desafios para o país neste novo contexto internacional.

Geoeconomia e o papel dos EUA

O conceito de geoeconomia se consolida à medida que países utilizam instrumentos econômicos como armas políticas. Donald Trump, ao bloquear indicações para o Sistema de Solução de Controvérsias (SSC) da OMC durante seu mandato, paralisou a resolução de conflitos comerciais, ação mantida por Joe Biden. O SSC era crucial para países como o Brasil negociarem em pé de igualdade com potências.

Segundo Renato Baumann, do Ipea, o esvaziamento da OMC visa conter a China, maior rival dos EUA. Trump prometeu agir contra a organização por supostamente favorecer o país asiático, que ingressou na OMC em 2001 após longa negociação. Vera Thorstensen, da FGV, reforça que Trump bloqueou o SSC por acreditar que os juízes beneficiavam a China.

O uso de tarifas e sanções, além do poder do dólar, são estratégias dos EUA para obter vantagens geopolíticas. A tarifa média dos EUA saltou para 17% em 2024, enquanto a do Brasil ficou em 12,4%. A China, por sua vez, amplia sua influência por meio de investimentos em infraestrutura e financiamento, além de dominar cadeias produtivas globais e minerais estratégicos.

Crise existencial da OMC

Especialistas apontam que a OMC vive crise profunda desde que barreiras não tarifárias, como exigências sanitárias e ambientais, passaram a ser usadas como obstáculos ao comércio. A pandemia acelerou a perda de relevância das regras da organização. O Brasil, deficitário no comércio com os EUA desde 2009, vê-se vulnerável diante de tarifas e investigações americanas sobre práticas comerciais.

Brasil pressionado entre China e EUA

O aumento das tarifas americanas contra o Brasil, anunciado por Trump em julho, evidencia a lógica geoeconômica e expõe a fragilidade do país. O saldo comercial entre Brasil e EUA segue deficitário para os brasileiros, e a dependência da China cresce: em 2024, 28% das exportações brasileiras foram para o país asiático, que também investe fortemente no Brasil e busca expandir o uso do renminbi.

Vera Thorstensen aponta que o Brasil terá de escolher entre China e EUA, rompendo com a neutralidade histórica. Enquanto isso, a China desloca mercados externos brasileiros para si mesma, e os EUA buscam conter o avanço chinês e dos Brics, inclusive com investidas contra o Pix e favorecimento de big techs americanas.

Daniel Kosinski, da Uerj, destaca que os EUA tentam isolar a China e enquadrar o Brasil, país continental e estratégico na América. Ele alerta para a dificuldade de enfrentar a pressão americana, já que a OMC perdeu capacidade de mediar conflitos. A saída, segundo Thorstensen, seria diversificar acordos com outros parceiros, como União Europeia e Canadá, que ainda seguem as regras da OMC.

A crise da OMC e o uso crescente da geoeconomia indicam um cenário de conflitos exacerbados e incerteza para o Brasil, que precisa repensar sua estratégia internacional diante da nova ordem global.