Economia

Pressão de Trump sobre Lisa Cook no Fed gera incertezas para economia dos EUA e Brasil

Ações de Trump contra diretora do banco central americano levantam debate sobre independência do Fed e possíveis impactos globais

A pressão de Donald Trump sobre a diretora Lisa Cook do Federal Reserve intensificou discussões sobre a independência do banco central dos EUA.

Especialistas avaliam que, embora a credibilidade do Fed ainda não esteja comprometida, a tentativa de interferência política pode afetar mercados globais, inclusive o Brasil.

O episódio envolve acusações de fraude e expõe riscos institucionais, com possíveis reflexos no câmbio, inflação e juros brasileiros.

Entenda o contexto da pressão sobre o Fed

Segundo William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, as ações de Trump podem pressionar o Federal Reserve, mas não necessariamente abalam sua credibilidade de imediato. Alves ressalta que, historicamente, as decisões do Fed têm sido independentes e que “o ataque de Trump é, na prática, apenas sua opinião sobre os juros”. Para ele, os dirigentes do banco central americano seguem agindo de forma autônoma.

Leonel Mattos, da StoneX, aponta duas hipóteses para a reação atípica do mercado: investidores acreditam que Trump não terá sucesso em influenciar o Fed, vendo o episódio como impasse político; ou desejam interferência política, acreditando que dirigentes alinhados a Trump poderiam beneficiar o ambiente de negócios.

O episódio ganhou força após Trump associar uma acusação de fraude hipotecária, apresentada por William Pulte, aliado do ex-presidente, como justificativa para demitir Lisa Cook. A lei do Fed prevê destituição por justa causa, mas especialistas como Peter Conti-Brown, da Universidade da Pensilvânia, afirmam que a acusação não se enquadra nos critérios tradicionais, já que os fatos ocorreram antes da nomeação de Cook.

Maykon Douglas, economista, avalia que a tentativa de intervenção de Trump reflete uma percepção de enfraquecimento das instituições americanas, ampliando riscos institucionais e incertezas.

Impactos no Brasil e possíveis desdobramentos

A instabilidade causada pela pressão política sobre o Fed já afeta o mercado internacional. O índice DXY, que mede o dólar frente a moedas desenvolvidas, caiu 10,2% no ano, enquanto a desvalorização frente ao real chega a 12,07%. As Treasuries de 10 anos caíram 7,13% em 2024, mas acumulam alta de 10,63% em 12 meses.

William Castro Alves destaca que o enfraquecimento do dólar favorece moedas emergentes, impulsiona commodities e ações. A valorização do real reduz custos de importação, ajuda a conter a inflação e pode abrir espaço para o Banco Central baixar a Selic, atualmente em 15% ao ano.

Maykon Douglas ressalta que a autonomia técnica do banco central é fundamental para a credibilidade da política monetária. A desconfiança sobre a independência do Fed pode encarecer financiamentos e desvalorizar ainda mais o dólar.

Analistas do BTG Pactual, Luiza Paparounis e Francisco Lopes, afirmam que a crise reforça incertezas institucionais nos EUA e intensifica temores sobre o futuro do Fed. Se Trump conseguir maioria no conselho, poderá indicar substitutos alinhados a suas visões, sujeitos à aprovação do Senado.

Apesar das incertezas, o mercado ainda não reagiu fortemente ao ataque de Trump, pois acredita na resiliência institucional do Fed ou vê vantagem em uma possível influência republicana sobre a política monetária.

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