A possível demissão de Lisa Cook do conselho do Federal Reserve, anunciada por Donald Trump, provocou reação moderada no mercado financeiro nesta terça-feira (26). Investidores e economistas duvidam que a saída da diretora do Fed realmente se concretize, devido às proteções legais do cargo e à postura do banco central americano.
O Fed defendeu sua independência e afirmou que Cook permanece no cargo até decisão judicial. O caso, inédito, intensifica o embate entre a Casa Branca e a autoridade monetária dos EUA.
Fed reforça independência diante de anúncio
Após o anúncio de Donald Trump sobre a demissão de Lisa Cook, o Federal Reserve divulgou nota oficial reiterando a independência da instituição. O Fed destacou que seus diretores têm mandatos fixos de 14 anos e só podem ser afastados pelo presidente dos EUA por justa causa, conforme o Federal Reserve Act, a lei de 1913 que criou o banco central.
A instituição ressaltou que essas garantias são essenciais para proteger as decisões de política monetária de influências políticas. “Mandatos prolongados e proteções contra demissões arbitrárias asseguram que as decisões do Fed sejam baseadas em dados, análise econômica e nos interesses de longo prazo do povo americano”, afirmou o comunicado.
Lisa Cook, por meio de seu advogado, declarou que não há motivo legal para sua demissão e que não irá renunciar. O advogado informou que todas as medidas legais serão tomadas para contestar a decisão, classificada como ilegal. O caso foi encaminhado ao Departamento de Justiça para investigação.
Contexto político e reação do mercado
O anúncio de Trump é visto como uma escalada nos ataques à independência do banco central. Ele justificou a tentativa de afastamento de Cook com acusações de fraude hipotecária, alegando que ela teria declarado duas residências como principais para obter melhores condições de financiamento. No entanto, a legislação impede que o presidente demita membros do conselho sem comprovação de falta grave.
Segundo Fábio Kanczuk, diretor de macroeconomia do ASA e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central do Brasil, o mercado reagiu de forma moderada porque prevalece a percepção de que Trump não conseguirá concretizar a demissão. Em entrevista à GloboNews, Kanczuk afirmou que investidores mantêm a confiança na estabilidade institucional do Fed.
Decisão inédita e trajetória de Lisa Cook
A demissão direta de um membro do conselho de governadores do Fed por decisão presidencial é inédita. O banco central foi estruturado para garantir independência, com mandatos longos e escalonados, e sem subordinação ao Executivo ou ao Congresso. Essa estrutura busca proteger a política monetária de pressões políticas e garantir decisões voltadas ao pleno emprego e à estabilidade de preços.
Lisa Cook fez história em 2022 ao se tornar a primeira mulher negra indicada para o conselho do Fed, nomeada pelo então presidente Joe Biden para mandato até 2038. Economista formada pela Universidade de Oxford e doutora pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Cook foi professora na Universidade Estadual de Michigan e pesquisadora sobre os impactos da discriminação e das recessões na economia americana. Ela também atuou na recuperação de Ruanda após o genocídio de 1994, fala cinco idiomas e já integrou o conselho de assessores econômicos do presidente Barack Obama e o Departamento do Tesouro dos EUA.
O episódio amplia as tensões entre a Casa Branca e o Fed, especialmente diante das pressões de Trump para redução da taxa básica de juros. O banco central, por sua vez, mantém sua postura de independência e aguarda a decisão judicial sobre o caso de Lisa Cook.