A participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de mais de 70% no início dos anos 2000 para 57% em março de 2025, segundo o FMI. O uso de moedas alternativas e o aumento da demanda por ouro refletem a busca por diversificação. Políticas comerciais de Donald Trump, como tarifas de importação, alimentam a desconfiança no dólar e impactam mercados internacionais.
Apesar disso, especialistas afirmam que ainda é cedo para prever o fim da hegemonia da moeda americana, destacando sua predominância em transações internacionais e falta de alternativas viáveis.
Participação do dólar nas reservas internacionais e comércio global
Relatório do J.P. Morgan aponta que a fatia do dólar nas reservas mundiais caiu para 57% em março de 2025, enquanto moedas como o renminbi chinês dobraram sua participação na última década, embora ainda representem apenas 2%. O ouro, por sua vez, já corresponde a 9% das reservas de mercados emergentes, superando os 4% de dez anos atrás.
No comércio internacional, o dólar mantém domínio em volumes de câmbio, faturamento comercial e emissão de dívida, mas perde espaço em mercados de commodities, especialmente energia. Países como Índia, China e Brasil passaram a utilizar moedas locais em transações com a Rússia, contornando sanções e pagando petróleo em suas próprias moedas.
Além disso, a participação estrangeira em títulos do Tesouro americano caiu de 50% antes de 2008 para 30% em 2025, indicando menor confiança internacional. “Onde estamos observando a desdolarização é nas reservas cambiais dos bancos centrais e nas transações de commodities”, afirma Luis Oganes, do J.P. Morgan.
Impacto das políticas de Trump e volatilidade do dólar
No primeiro semestre de 2024, o dólar teve sua maior desvalorização desde 1973. Após breve recuperação em julho, voltou a cair em agosto, e projeções do Morgan Stanley indicam possível queda adicional de 10% até 2026. O anúncio de tarifas de importação por Donald Trump provocou vendas de US$ 63 bilhões em ações de empresas americanas entre março e abril de 2025, segundo o Goldman Sachs.
Trump defende tarifas universais e específicas, como a de 50% sobre produtos do Brasil, alegando proteger a indústria americana. No entanto, especialistas apontam que tais medidas minam a confiança na moeda e podem ter como objetivo enfraquecer o dólar, tornando exportações mais competitivas. “Trump não quer um dólar forte porque isso aumenta as importações”, afirma Gabriela Siller, do grupo BASE.
Apesar das críticas, parte dos analistas considera prematuro prever o fim do domínio do dólar, citando a ausência de alternativas líquidas e estáveis. “A afirmação de que estamos vivendo o começo do fim do dólar é prematura”, diz Robert McCauley, da Universidade de Boston.
Fatores de desconfiança e papel dos Brics
O uso do dólar como instrumento de sanções econômicas pelos EUA contribui para a busca de alternativas, segundo Robert McCauley. A exclusão de países e indivíduos do sistema financeiro internacional, como ocorreu com a Rússia e, em outro contexto, com o ministro Alexandre de Moraes, reforça a percepção de risco entre investidores.
O aumento dos déficits fiscais americanos, que atingiram US$ 35,46 trilhões em 2024 (123% do PIB), também alimenta temores de desvalorização futura da moeda. Expectativas de cortes nas taxas de juros pelo Fed podem reduzir ainda mais o apelo do dólar.
Internamente, Trump pressiona o Fed por cortes de juros e chegou a anunciar a demissão de Lisa Cook, diretora do banco central, gerando disputas judiciais e acusações de interferência política.
O movimento de desdolarização ganhou força após a crise de 2008, com os Brics liderando a busca por alternativas. O bloco, agora ampliado para 15 membros, discute o uso de moedas nacionais e a criação de uma moeda própria. O presidente Lula defende a substituição do dólar no comércio global, enquanto Trump vê o grupo como ameaça direta à moeda americana.
Apesar das iniciativas, especialistas destacam que a substituição do dólar é lenta e enfrenta obstáculos, como a falta de mercados líquidos alternativos e a própria dependência de países como China e Rússia da moeda americana em transações e empréstimos internacionais.