O acesso à internet em áreas rurais do Brasil cresceu nos últimos anos, impulsionado por políticas públicas e investimentos privados. No entanto, a qualidade da conexão ainda é baixa, dificultando o uso pleno de tecnologias digitais no agronegócio.
Produtores relatam problemas de sinal, custos altos e falta de capacitação, o que limita a adoção de ferramentas modernas. Em estados como o Amazonas, a conectividade ainda é um grande desafio.
Crescimento da internet no campo
Nos últimos anos, houve um aumento expressivo no número de conexões de internet em áreas rurais, resultado de iniciativas como o projeto Semear Digital e de investimentos de empresas e governos. Apesar disso, apenas 52% dos domicílios rurais possuem sinal 4G ou 5G, segundo o Indicador de Conectividade Rural (ICR), desenvolvido pela ConectarAGRO e a UFV.
Desafios da qualidade da conexão
Mesmo com o avanço, muitos produtores afirmam que a velocidade e estabilidade do sinal são insuficientes para as necessidades do campo. “Fui educado que a internet não me pertencia”, relata um produtor, evidenciando a exclusão digital ainda presente em muitas regiões.
O Amazonas lidera a falta de conexão rural, enquanto o Distrito Federal apresenta os melhores índices de uso da internet no campo. A topografia complexa do Brasil, com áreas montanhosas e florestas, dificulta a expansão da infraestrutura, tornando o investimento elevado e, muitas vezes, pouco atraente para empresas e governos.
Impacto na modernização agrícola
Para Luciana Romani, coordenadora de parcerias do projeto Semear Digital, a conectividade só faz sentido se vier acompanhada de tecnologia digital. No entanto, agricultores ainda enfrentam barreiras como alto custo de equipamentos, falta de internet nas propriedades, dificuldade para contratar serviços especializados e desconhecimento sobre quais tecnologias utilizar.
Empresas do setor também apontam problemas semelhantes: 61% citam falta de conexão, quase 60% reclamam do custo elevado e mais de 40% mencionam a falta de capacitação tecnológica dos usuários.
Consequências e perspectivas
A pesquisa de Edson Bolfe, da Embrapa, classifica os produtores rurais em três grupos: iniciantes, que usam a internet para informações e vendas; intermediários, que adotam sensores e imagens de satélite; e avançados, que utilizam inteligência artificial e automação em fazendas inteligentes.
A má qualidade do sinal limita o uso de tecnologias como agricultura de precisão, que pode gerar economia de até 90% no uso de agrotóxicos, segundo Durval Dourado Neto, da Esalq. A conectividade também é fundamental para combater incêndios, melhorar a segurança, saúde e educação no campo.
Casos como o do piscicultor Tiago Oliveira, que só conseguiu parar os roubos em sua propriedade após instalar câmeras conectadas à internet, ilustram a importância do acesso digital. Além disso, a falta de conectividade afeta a atração e retenção de mão de obra, já que trabalhadores preferem fazendas com internet para manter contato com a família e acessar treinamentos.
Paola Campiello, presidente da Associação ConectarAGRO, destaca que mais tecnologia traz mais suporte ao operador rural. O desafio, porém, permanece: garantir que a internet chegue de forma estável, acessível e acompanhada de capacitação para que o campo brasileiro avance em produtividade e qualidade de vida.