Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, declarou que tecnologias limpas já permitem cortar 65% das emissões em 10 anos. Ele ressaltou o papel fundamental do Brasil na COP30 e cobrou uma postura firme contra combustíveis fósseis.
Gore criticou a influência da indústria fóssil e destacou a necessidade de transição energética global. O Brasil, segundo ele, tem condições únicas para liderar esse processo.
O impasse dos fósseis
Apesar de uma visão otimista sobre as soluções climáticas, Al Gore demonstrou indignação com a demora das negociações internacionais em abordar diretamente o tema dos combustíveis fósseis. “Foram necessários 28 encontros para que a expressão ‘combustível fóssil’ fosse ao menos mencionada, quando a crise climática é essencialmente uma crise dos fósseis. Mais de 80% do problema vem da queima de carvão, petróleo e gás”, afirmou Gore.
Ele também citou o fracasso das negociações sobre plásticos em Genebra como um sinal do poder da indústria fóssil, criticando a possibilidade de triplicar a produção de plásticos mesmo diante de evidências dos danos causados por microplásticos. “Não podemos permitir que os poluidores escrevam as regras. Isso não vai durar: o amor pela liberdade é mais forte, e acredito que veremos a queda desse poder hegemônico”, declarou.
Brasil sob pressão
Durante a “pré-COP” em Bonn, em junho, o Brasil foi pressionado a defender um plano de eliminação dos combustíveis fósseis. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, recebeu uma carta assinada por mais de 250 cientistas de 27 países, incluindo brasileiros como Carlos Nobre, Mercedes Bustamante e Paulo Artaxo, cobrando liderança no “phase-out” do petróleo.
O documento destaca que o mundo ultrapassou 1,5 ºC de aquecimento em um único ano pela primeira vez, atribuindo a principal causa à dependência de combustíveis fósseis. A indústria fóssil representa cerca de 3% do PIB global e, nos países do G20, responde por 70% da energia primária, enquanto no Brasil essa participação é de 50%.
“Vocês são o que os outros países do G20 querem ser quando se tornarem adultos”, disse Gore sobre a matriz energética brasileira. Ele acredita que o Brasil tem potencial para liderar a agenda climática global, especialmente na COP30.
Diplomacia climática em teste
O Brasil sediará a COP em um momento político delicado, com o governo dividido sobre a exploração de petróleo em áreas sensíveis como a Foz do Amazonas. O presidente Lula defende a exploração para financiar a transição energética, enquanto a ministra Marina Silva resiste à iniciativa.
Apesar desses desafios, Al Gore expressou confiança na liderança brasileira na COP30 e destacou a importância de reafirmar o compromisso com a transição energética. Durante evento no Rio, Gore questionou o embaixador Corrêa do Lago sobre a possibilidade de a COP30 reavivar o compromisso de saída dos fósseis. Corrêa do Lago afirmou que a transição será tema-chave na Agenda de Ação, citando até mesmo a Arábia Saudita como potencial colaboradora em renováveis, o que surpreendeu Gore.
Gore também comentou sobre a crise de hospedagem em Belém, sede do evento, afirmando que estar no coração da floresta envia uma mensagem poderosa ao mundo.
Trump, Europa e China
Em evento do BNDES, Gore criticou o ex-presidente Donald Trump por mentiras sobre o comércio com o Brasil e questões climáticas. Ele lamentou a oscilação dos EUA na liderança climática e espera mudanças políticas favoráveis no Congresso. Gore elogiou a União Europeia e sua unidade sob Ursula Von der Leyen, mas disse não acreditar que o mundo seguiria a China devido à falta de liberdade no país.