Um ex-técnico de TI norte-coreano, identificado como Jin-su, revelou à BBC detalhes sobre o esquema secreto do regime de Kim Jong Un para arrecadar fundos por meio do envio de profissionais ao exterior. Jin-su, que desertou após anos de trabalho em países como China e Rússia, contou como seu salário era majoritariamente destinado ao governo norte-coreano.
Segundo ele, até 85% dos rendimentos dos trabalhadores de TI enviados ao exterior são confiscados pelo regime, que enfrenta sanções internacionais e crise econômica. Jin-su relatou que, apesar de atuar de forma clandestina e com identidades falsas, a vida fora da Coreia do Norte ainda era melhor do que no país natal.
O funcionamento do esquema
Jin-su explicou que usava centenas de documentos falsos para conseguir empregos remotos no setor de Tecnologia da Informação em empresas ocidentais, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Ele e colegas conseguiam salários de pelo menos US$ 5 mil mensais, mas a maior parte era enviada ao regime norte-coreano. Relatórios da ONU e de empresas de cibersegurança confirmam que milhares de profissionais atuam dessa forma, gerando entre US$ 250 e US$ 600 milhões por ano para a Coreia do Norte.
O plano se intensificou durante a pandemia, com o aumento do trabalho remoto. Para conseguir os empregos, Jin-su fingia ser chinês e negociava identidades com pessoas de países como Hungria, Turquia e Reino Unido, que cediam seus dados em troca de parte dos ganhos. “Se você coloca um rosto asiático no seu perfil, nunca vai conseguir trabalho”, afirmou Jin-su, destacando a necessidade de ocultar a nacionalidade devido às sanções internacionais.
Além do envio de salários, alguns trabalhadores chegaram a roubar dados ou hackear empresas para exigir resgates. Em 2023, a justiça dos EUA acusou 14 norte-coreanos de ganhar US$ 88 milhões de forma clandestina e extorquir empresas americanas. Outros quatro foram acusados de usar identidades falsas para trabalhar em uma empresa de criptomoedas nos EUA.
Repercussão internacional e vigilância
Empresas de tecnologia e cibersegurança relatam suspeitas frequentes de candidatos norte-coreanos em processos seletivos. Rob Henley, da Ally Security, afirmou ter entrevistado até 30 profissionais suspeitos para vagas remotas. Já Dawid Moczadlo, do Vidoc Secutiry Lab, identificou uso de softwares de inteligência artificial para ocultação de identidade em entrevistas.
Apesar das denúncias, a embaixada norte-coreana em Londres não respondeu aos questionamentos da BBC. Organizações como a PSCORE também confirmam relatos semelhantes de outros desertores.
Vida dos trabalhadores e desafios para desertar
A Coreia do Norte envia trabalhadores ao exterior há décadas, principalmente para China e Rússia, em setores como fábricas e restaurantes. No caso dos profissionais de TI, há maior liberdade para acesso a informações ocidentais, mas a vigilância continua rígida. Jin-su relatou sensação de confinamento e restrições severas durante sua estadia na China.
Segundo Jin-su, poucos profissionais de TI pensam em desertar devido ao risco elevado: a maioria retorna ao país, mesmo ficando com uma pequena parte dos ganhos, pois isso tem grande valor na Coreia do Norte. Desertar pode significar nunca mais ver a família e colocar parentes em risco de punição.
Após desertar, Jin-su segue trabalhando no setor de TI, agora podendo ficar com uma fatia maior de seu salário. Ele afirma que as habilidades adquiridas durante o período sob o regime o ajudaram a se adaptar à nova vida. “Agora trabalho duro e ganho o dinheiro que mereço”, declarou.