O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas elevadas contra países do Brics, justificando as medidas como resposta à postura “antiamericana” do bloco. A decisão, que afeta Brasil, Índia, China e outros membros, visa conter o avanço de alternativas ao dólar e preservar a influência dos EUA no cenário internacional. Especialistas apontam que as ações de Trump podem, no entanto, fortalecer a coesão interna do Brics.
Estratégias e justificativas de Trump
Ao impor tarifas de 25% sobre produtos indianos e de até 50% sobre produtos brasileiros, Trump citou a participação desses países no Brics como fator agravante. “Eles têm o Brics, que é basicamente um grupo de países anti-Estados Unidos”, declarou o presidente na Casa Branca, em 30 de janeiro. Ele afirmou ainda que não permitirá ataques ao dólar e ameaçou sanções aos membros do bloco.
O presidente americano também relacionou a tarifa sobre o Brasil ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, alegando “tratamento injusto” ao ex-presidente. Em julho, Trump já havia avisado que países alinhados a “políticas antiamericanas do Brics” receberiam tarifa extra de 10%.
As tarifas afetam Etiópia, Egito e Emirados Árabes Unidos (10%), Indonésia (19%), África do Sul e China (30%). A China, porém, negocia diretamente com os EUA e só será taxada a partir de 12 de agosto. Quase 700 produtos brasileiros ficaram isentos, incluindo suco de laranja, aeronaves e petróleo.
Reação e fortalecimento do bloco
Especialistas como Marta Fernandez, do BRICS Policy Center, e Lucas Leite, da Faap, avaliam que as medidas de Trump podem acelerar a coesão do grupo. Fernandez vê nas tarifas um estímulo para os países buscarem novos parceiros comerciais, enquanto Leite observa que as ações americanas promovem a busca por alternativas ao sistema liderado pelos EUA.
O Brics, formado por Brasil, Rússia, China, Índia, Irã, Etiópia, Indonésia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e Egito, representa quase metade da população mundial e 40% da riqueza global. O bloco tem ampliado o uso de moedas nacionais, discutido a criação de uma moeda própria e atraído interesse de mais de 40 países.
Alternativa à ordem ocidental e ameaça ao dólar
Para Fernandez, o Brics desafia a hegemonia americana ao propor uma ordem multipolar e descentralizada, inclusive com reformas no FMI, OMC e Conselho de Segurança da ONU. O bloco também busca redistribuição de poder em instituições de Bretton Woods e oferece empréstimos via Novo Banco de Desenvolvimento.
Discussões sobre alternativas ao dólar ganharam força após sanções à Rússia e exclusão de bancos russos do Swift. O grupo já ampliou o uso do renminbi e debate uma moeda própria. Lula defende há anos o comércio sem o dólar e, após a cúpula no Rio, afirmou: “Queremos ter independência nas nossas políticas… discutindo a possibilidade de ter uma moeda própria”.
Trump, por sua vez, considera os planos do Brics uma “provocação existencial” e ameaçou que o bloco “acabará muito rapidamente” caso avance nesse sentido. Analistas apontam que, apesar das tarifas, o comércio do Brasil com os EUA gerou superávit de US$ 7,4 bilhões para os americanos em 2024. A ordem executiva da tarifa de 50% foi assinada em 30 de julho.
Expansão e perspectivas
Em 2024 e 2025, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia aderiram ao bloco. Arábia Saudita e Argentina foram convidadas, mas ainda não formalizaram entrada. O interesse de países como Paquistão, Turquia, Argélia e Bolívia evidencia o apelo do Brics como alternativa ao Ocidente.