As tarifas punitivas impostas pelo governo Trump aos países do Brics estão incentivando o bloco a fortalecer sua cooperação comercial e reduzir a dependência do dólar. Segundo especialistas, as medidas aproximam os membros, apesar das divergências internas, e estimulam iniciativas como acordos bilaterais em moedas locais e aumento das reservas em ouro.
O comércio intra-Brics, embora ainda enfrente barreiras, tende a crescer, com apoio político a projetos conjuntos e busca por maior autonomia frente ao Ocidente.
Comércio intra-Brics e resposta às tarifas
De acordo com pesquisa do Boston Consulting Group (BCG), o comércio entre os países do Brics cresce mais rápido que com o G7, mas ainda é concentrado em petróleo e gás e enfrenta mais barreiras internas do que as existentes no Ocidente. O BCG aponta sinais de aumento da cooperação, como reversão de medidas antidumping, avanços em acordos de livre comércio, apoio à reforma da OMC e mais investimentos estrangeiros entre os membros.
Mihaela Papa, diretora do Center for International Studies do MIT, prevê maior relevância do comércio intra-Brics, com apoio a iniciativas como campanhas ‘Compre Brics’, bolsa de grãos e ampliação de mecanismos de liquidação em moedas locais. Uma moeda única do bloco, proposta pela Rússia, segue em espera, mas sistemas paralelos em yuan, rupia e rublo devem crescer, minando gradualmente o monopólio do dólar, segundo Ajay Srivastava, ex-servidor do órgão de comércio externo da Índia.
As tarifas dos EUA criaram uma queixa comum no bloco, levando à expansão de acordos bilaterais em moedas nacionais e ao aumento das reservas em ouro pelos bancos centrais do Brics. O presidente Lula declarou que buscaria uma resposta conjunta do bloco ao tarifaço de Trump.
Solidariedade e novos movimentos diplomáticos
O fortalecimento da união será evidenciado na cúpula da Organização para Cooperação de Xangai (SCO) em Tianjin, China, onde Xi Jinping receberá Narendra Modi e Vladimir Putin, além de outros líderes do Sul Global. Será a primeira visita de Modi à China em sete anos. O Kremlin pressiona por negociações trilaterais entre China, Rússia e Índia, buscando fortalecer o núcleo do Brics e reduzir tensões históricas, especialmente entre Índia e China.
Recalibração e desafios nas relações bilaterais
As tarifas dos EUA levaram a Índia a fortalecer laços econômicos com a China, retomando voos diretos, flexibilizando vistos e ampliando discussões comerciais. Os dois países negociam o fornecimento de minerais de terras raras, essenciais para a indústria indiana, mas desconfianças persistem devido às ambições chinesas na Ásia e à relação próxima entre China e Paquistão. O economista Shilan Shah destaca que importações chinesas baratas prejudicam a indústria indiana, e a dependência da Índia dos EUA limita avanços do Brics.
Brasil, Rússia e África do Sul reforçam integração
O Brasil busca ampliar o comércio com a China, seu maior parceiro, que já responde por 26% das exportações brasileiras. A Rússia e a China aprofundam o alinhamento estratégico, com mais de 90% do comércio bilateral em moedas locais. A África do Sul reafirma compromisso com o Brics, especialmente em reforma da governança global e comércio bilateral, segundo Sanusha Naidu, pesquisadora do Instituto para o Diálogo Global.
Fragmentação e pragmatismo
Com a recente expansão para dez membros, o Brics enfrenta fragmentação por interesses nacionais divergentes e tendências autoritárias. Srivastava afirma que o bloco prioriza a cooperação pragmática em comércio, finanças e cadeias de abastecimento, mais do que a unidade perfeita.