O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode afetar os preços de alimentos no Brasil. Analistas apontam que carnes podem ficar mais caras, enquanto a tilápia tende a baratear no mercado interno. O impacto sobre o café deve ser limitado inicialmente, mas há incertezas para o médio e longo prazo.
Entidades do setor e especialistas destacam que a reação do mercado dependerá de fatores como produção interna, demanda global e políticas comerciais. O cenário exige atenção para possíveis oscilações nos preços ao consumidor brasileiro.
Entenda a tarifação e seus efeitos
Tarifação refere-se à aplicação de tarifas, ou seja, impostos sobre produtos importados ou exportados. No caso dos alimentos, ela pode encarecer ou baratear produtos no Brasil, dependendo do contexto de mercado e das políticas adotadas.
Segundo Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), absorver no mercado interno o volume antes exportado aos EUA não é viável economicamente. “O mercado interno já é abastecido com uma produção muito grande, e colocar o que era destinado à exportação nele faria o preço ficar ‘inexequível’, quebrando a cadeia produtiva”, afirma. Lobo prevê que, a médio e longo prazo, a taxação americana pode até encarecer o produto para os brasileiros, pois a tarifa tende a frear a produção, o que pode elevar preços diante de aumento de demanda.
Impacto sobre carne bovina
O preço da carne tende a subir, já que o número de abates deve cair no segundo semestre, segundo Wagner Yanaguizawa, do Rabobank. Mesmo sem o tarifaço, pecuaristas já estavam segurando mais fêmeas para reprodução. Cesar de Castro Alves, do Itaú BBA, destaca que produtores podem separar menos animais para engorda e abate devido à queda nas vendas para os EUA, que compram 12% da carne bovina brasileira, principalmente a parte dianteira do boi. Parte da produção pode ser redirecionada para países como Egito, mas a oferta global de carne deve cair 2%. Antes da alta, pode haver um curto período de queda de preços ao consumidor, devido à pressão da China para baixar valores e à queda no custo da ração.
Setor cafeeiro
O café não deve ter impacto imediato, pois exportadores e importadores devem buscar acordo para evitar interrupção do comércio, segundo Celírio Inácio, da Abic. O preço do café caiu 0,36% em julho, puxado por expectativa de safra maior do tipo robusta. Os EUA são os maiores compradores do café brasileiro (16% das exportações), mas preferem o tipo arábica. Trump determinou que produtos embarcados até 6 de agosto não serão taxados. Para Fernando Maximiliano, da StoneX, o cenário para médio e longo prazo é incerto, pois não se sabe a duração das tarifas. Marcos Matos, do Cecafé, alerta que um tarifaço prolongado pode causar oscilações de preços no Brasil.
Tilápia e outros fatores
A tilápia, peixe brasileiro mais exportado, tem 90% de seu volume destinado aos EUA. Com a tarifa de 50%, a produção deve ser redirecionada ao mercado interno, ampliando a oferta e pressionando preços para baixo, segundo Francisco Medeiros, da PeixeBR. Matheus Do Ville Liasch, do Cepea/USP, ressalta que o setor já enfrenta retração nas vendas no Brasil e que o repasse ao consumidor será gradual e imprevisível, passando por produtores, frigoríficos, varejistas e atacadistas.
Além das tarifas, fatores como produção interna, logística, demanda global e políticas comerciais influenciam o preço final dos alimentos. Analistas destacam que a tarifação pode tanto encarecer quanto baratear produtos, dependendo do equilíbrio entre proteção à produção nacional e acesso a preços justos para o consumidor.
No caso do café, se a tarifa durar muito tempo, os EUA podem buscar outros fornecedores e o Brasil redirecionar exportações, criando uma nova realidade de preços. Celírio Inácio alerta que falta de remuneração pode reduzir a produção futura, elevando preços. Já Maximiliano acredita que maior disponibilidade interna tende a baixar preços a médio prazo.