A imposição de tarifa de 50% por Donald Trump sobre produtos brasileiros, caso concretizada, preocupa exportadores do Brasil. A medida, vista como motivada por questões políticas, pode afetar setores-chave, com poucas alternativas de mercado. Especialistas descartam a China como substituta para absorver a demanda dos produtos atingidos.
O anúncio ocorre em meio a tensões diplomáticas entre Brasil e EUA, após Trump citar o processo contra Bolsonaro em carta a Lula. O governo brasileiro afirma que não aceitará ingerências externas.
Motivações políticas e reação do governo brasileiro
A balança comercial entre Brasil e Estados Unidos é superavitária para os americanos, com saldo de US$ 283,8 milhões em 2023 e US$ 1,67 bilhão no primeiro semestre deste ano. Analistas interpretam a tarifa de 50% como decisão política, relacionada ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, citado por Trump em carta a Lula. O ex-presidente americano também acusou o Brasil de perseguir Bolsonaro e restringir a liberdade de expressão, referindo-se a decisões do STF sobre conteúdos antidemocráticos nas redes sociais.
O presidente Lula respondeu que o Brasil é soberano, com instituições independentes, e não aceitará tutela externa. Ele afirmou que o processo judicial contra os envolvidos na tentativa de golpe cabe apenas à Justiça Brasileira.
Impacto da tarifa e limites da China como alternativa
Se a tarifa for implementada, produtos brasileiros exportados aos EUA passarão a ser taxados em 50%. A lista inclui desde commodities como petróleo, suco de laranja e carne até industrializados de alta tecnologia, como aviões. Apesar de China e EUA serem os maiores parceiros comerciais do Brasil, suas pautas de importação são distintas. Segundo Livio Ribeiro, do Ibre/FGV, os EUA compram muitos produtos manufaturados e bens intermediários, enquanto a China concentra-se em soja (40% das exportações brasileiras para lá), petróleo (19%) e minério de ferro (17%).
Guilherme Klein, da Universidade de Leeds, destaca que apenas alguns itens, como petróleo, carne bovina e minério de ferro, poderiam ser redirecionados à China. No entanto, o excesso de oferta global de minério de ferro já pressiona preços para baixo, e exportar excedentes pode significar perdas financeiras. Klein ressalta que a China poderia absorver parte do excedente por razões estratégicas, mas a imprevisibilidade política dificulta projeções.
Setores mais vulneráveis e perspectivas
Produtos industrializados, como autopeças e aviões, teriam mais dificuldade de encontrar novos mercados. Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, lembra que muitos itens, como autopeças para tratores, são específicos e dependem de comércio intrafirma, o que dificulta a transferência para outros destinos. O segmento de alta tecnologia, como o da aviação, é especialmente sensível: o Brasil exporta aviões para os EUA e importa peças americanas, o que pode aumentar custos em caso de guerra comercial.
Segundo análise do Itaú BBA, a Embraer pode ser uma das empresas mais afetadas, com 60% da receita vinda da América do Norte e 46% potencialmente expostos às tarifas. A Weg, do setor eletroeletrônico, também pode sofrer, com 25% da receita oriunda da América do Norte e 7% exposta à medida.
Commodities e alternativas limitadas
Commodities como café e suco de laranja também estão em risco. O Cecafé afirma que os EUA teriam dificuldade em substituir o café brasileiro, podendo pagar mais caro ou consumir menos. No caso do suco de laranja, a CitrusBR alerta para uma situação insustentável, já que 41,7% das exportações vão para os EUA e a Europa não teria capacidade de absorver o excedente sem queda drástica de preços.
Barral ressalta que, mesmo que commodities possam ser redirecionadas, isso ocorreria a preços menores. No geral, especialistas concordam que a tarifa de Trump funcionaria como uma sanção econômica, sem lógica comercial, e que o consumidor americano pode ser o mais prejudicado.