O Brasil, maior exportador mundial de café, sempre destinou seus grãos de melhor qualidade ao exterior. No entanto, mudanças regulatórias e iniciativas do setor vêm transformando esse cenário desde 1989, com impacto direto no consumo interno.
Em 2023, novas regras para o café torrado reforçaram o controle de qualidade, ampliando a oferta de produtos superiores no mercado brasileiro. O passado de fraudes e baixa qualidade está sendo superado por ações como o Selo de Pureza da Abic e campanhas de valorização nacional.
Exportação e consumo interno: uma dinâmica em transformação
O Brasil lidera as exportações globais de café, com a maior parte dos grãos de alta qualidade sendo enviada para mercados internacionais que pagam melhores preços. Isso historicamente deixou o consumidor brasileiro com acesso limitado a cafés superiores, reforçando a percepção de que o melhor café “vai para fora”.
Produtores e especialistas reconhecem a vantagem econômica da exportação, mas destacam a necessidade de elevar a qualidade do café disponível no país. O controle de qualidade era ineficiente até os anos 1980, quando o governo fixava preços e o mercado era pouco estimulado a buscar excelência. Fraudes como a mistura de cevada e milho eram comuns, e pesquisas de opinião indicavam que o consumidor via pouco valor no café nacional.
Mudanças a partir de 1989
O cenário começou a mudar em 1989, quando a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) passou a fiscalizar o setor, exigindo pacotes com 100% de grãos de café e lançando o Selo de Pureza. O fim da intervenção estatal nos preços e o fortalecimento da fiscalização incentivaram investimentos em qualidade e o surgimento de cafés premiados.
Em 2023, a publicação da portaria 570 pelo Ministério da Agricultura estabeleceu regras detalhadas para o café torrado, incluindo o limite de 1% de impurezas, ampliando as ações de fiscalização e combate a fraudes.
O papel do Selo de Pureza e da comunicação
A Abic, preocupada com a queda do consumo e a má reputação do café brasileiro, instituiu auditorias rigorosas e passou a monitorar amostras em supermercados. Empresas que não cumpriam as normas eram penalizadas, e o Ministério Público era acionado quando necessário.
As campanhas de valorização do café nacional, especialmente as propagandas com o ator Tarcísio Meira, foram fundamentais para mudar a imagem do produto junto ao público. O Selo de Pureza, criado em 1989, permanece relevante e evoluiu para incluir quatro etapas de análise: microscópica, sensorial, auditoria de boas práticas e monitoramento nas prateleiras.
Crescimento do mercado de cafés especiais
A partir dos anos 1990, o segmento de cafés especiais ganhou força, com a fundação da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em 1991. O consumo interno desses grãos aumentou de 1% em 2015 para 15% atualmente, embora a maior parte ainda seja exportada para mercados de alta renda como Europa, EUA e Japão.
Hoje, menos de 1% do café comercializado no Brasil apresenta fraudes, segundo a Abic. A percepção de que apenas o café ruim fica no país está ultrapassada, resultado dos avanços em fiscalização, certificação e valorização do produto nacional.