Saúde

Número de médicos cresce na Amazônia mas cobertura ainda é a menor do país

Mesmo com avanços e programas de incentivo, profissionais da medicina enfrentam desafios para atuar e permanecer na região Norte

A presença de profissionais da medicina na Amazônia ainda é limitada, apesar do número de médicos ter dobrado na última década. A região enfrenta dificuldades como isolamento, infraestrutura precária e baixa cobertura médica, impactando o atendimento à população.

Programas governamentais e a abertura de novos cursos buscam reverter o cenário, mas desafios persistem. Experiências de médicos locais e iniciativas de voluntariado mostram avanços, porém a fixação de profissionais segue como obstáculo.

Desafios para a fixação de médicos

Atuar como médico na região Norte do Brasil significa enfrentar isolamento, longas distâncias entre comunidades e infraestrutura hospitalar insuficiente. O isolamento social e a distância da família aumentam a rotatividade dos profissionais. Muitos relatam condições de trabalho precárias e falta de recursos, o que prejudica a qualidade do atendimento.

Edinelma Sousa da Costa, agente comunitária de saúde do Quilombo Piratuba, em Abaetetuba, Pará, destaca que a ausência de uma Unidade Básica de Saúde obriga a população a recorrer a voluntários e projetos como o Rios da Saúde, da Afya Faculdade de Ciências Médicas Abaetetuba. “Apesar de a gente ter acesso ao SUS, a gente pode enfrentar uma longa fila de espera por algumas especialidades. Por isso é importante para nós receber iniciativas como a dos médicos voluntários, que atendem os moradores e ajudam a descobrir algumas doenças”, afirma Nelma.

O Pará possui a segunda pior distribuição de médicos do país, com 1,38 profissional por mil habitantes, atrás apenas do Maranhão. O Distrito Federal lidera com 6,3 médicos por mil habitantes. Até 2013, a região Norte tinha apenas 0,8 médico por mil habitantes, cenário que começou a mudar com o programa Mais Médicos.

Iniciativas e avanços

O programa Mais Médicos, retomado em 2023, atua em três frentes: contratação emergencial, melhoria da estrutura das unidades e ampliação de vagas em graduação e residência médica. Entre 2011 e 2024, o número de médicos na região Norte dobrou, passando de 15.624 para 30.549. O número de vagas em cursos de medicina saltou de 8 para 23 a cada 100 mil habitantes, priorizando municípios com menor cobertura.

Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, afirma que políticas públicas buscam corrigir desigualdades. “A estratégia do Mais Médicos é que pelo menos 10% das vagas oferecidas nos novos cursos sejam com bolsa integral. Quanto mais estudantes da região, maior a probabilidade de que eles permaneçam na região”, explica.

Apesar dos avanços, a Associação Médica Brasileira alerta para o risco de formação de especialistas sem a devida qualificação, devido à falta de investimento em residência médica.

Experiências locais e perspectivas

Casos como o de Marcos, jovem do Quilombo Piratuba, evidenciam a importância de iniciativas voluntárias e de agentes comunitários para o diagnóstico e encaminhamento de pacientes. A ausência de médicos especialistas e a necessidade de longos deslocamentos ainda são realidade para muitos.

Profissionais como Fagner Carvalho, médico ribeirinho e professor em Abaetetuba, optaram por permanecer na região para contribuir com a saúde local. “Como profissional daqui, eu entendo muito essa realidade. Lidamos com pacientes que muitas vezes estão com dificuldade financeira ou logística por causa da geografia da Amazônia”, relata Carvalho, que também coordena o Serviço Especializado em Doenças de Chagas de Abaetetuba.

O estudo Demografia Médica no Brasil mostra que, entre 2013 e 2022, o país registrou a maior expansão do ensino médico, com 23 mil das 42 mil vagas abertas após 2014, principalmente em faculdades particulares. Ainda assim, a oferta na região Norte segue proporcionalmente baixa.

Para garantir a permanência dos médicos, especialistas apontam a necessidade de melhores vínculos empregatícios, concursos públicos e apoio psicológico, especialmente para quem atua em comunidades indígenas e ribeirinhas. O fortalecimento da residência médica e a valorização dos profissionais locais são vistos como caminhos para superar o déficit histórico.