A entrada do Irã e recentes conflitos envolvendo o país reacenderam o debate sobre o posicionamento dos Brics diante do Ocidente. A cúpula no Rio de Janeiro ocorre em meio à ausência dos presidentes da Rússia, China e Irã, alimentando especulações sobre o futuro e a identidade do bloco.
O grupo, formado por Brasil, Rússia, China, Índia, Irã, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e Egito, representa quase metade da população mundial e 40% da riqueza global. Especialistas divergem sobre o caráter antiocidental dos Brics diante de recentes episódios diplomáticos.
Conflitos recentes e pressão diplomática
A chegada do Irã aos Brics trouxe novos desafios geopolíticos ao bloco. Após ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã, diplomatas iranianos pressionaram por uma declaração mais contundente dos Brics. O bloco, no entanto, divulgou apenas uma nota expressando “preocupação” e mencionando violação da soberania iraniana, sem citar diretamente os agressores.
Negociadores brasileiros relataram à BBC News Brasil que a resistência iraniana foi superada e o texto da declaração final foi fechado, mas seu teor ainda não foi divulgado. A expectativa é de que o documento seja publicado entre domingo e segunda-feira (7/6).
Ausências marcantes e repercussão internacional
Os presidentes de Rússia, China e Irã não compareceram à cúpula no Rio. Vladimir Putin participa por videoconferência devido a um mandado de prisão internacional. Xi Jinping alegou conflito de agenda, sendo representado por Li Qiang, enquanto Masoud Pezeshkian, do Irã, foi substituído pelo chanceler Abbas Araghchi devido à crise de segurança no país.
Para a professora Devika Misra, a ausência de Xi Jinping pode dissipar críticas dos Estados Unidos sobre uma agenda antiocidental dos Brics, mas também pode indicar menor interesse da China no bloco. Ana Paula Garcia, do Brics Policy Center, destaca que o Brasil tem buscado evitar fricções com os EUA, afastando-se de propostas financeiras mais ousadas discutidas na cúpula anterior na Rússia.
O bloco, historicamente, defende reformas em sistemas de governança internacional e maior voz para países emergentes, mas a presença de adversários tradicionais dos EUA, como Rússia, China e Irã, alimenta a percepção de antagonismo ao Ocidente.
Debate sobre identidade: antiocidente ou não-ocidente?
A origem dos Brics remonta a 2001, quando o termo foi criado por Jim O’neil. Inicialmente, o grupo buscava maior representatividade em instituições globais após a crise financeira de 2008. Com o tempo, o bloco ganhou peso geopolítico, especialmente após a inclusão de países do Oriente Médio e tensões envolvendo EUA, China e Rússia.
Autoridades e especialistas divergem sobre o caráter antiocidental dos Brics. O ministro Mauro Vieira rejeita a tese, citando a diversidade diplomática de países como Brasil, África do Sul e Índia. Narendra Modi, da Índia, e Vladimir Putin reforçam que os Brics não são contra o Ocidente, mas sim um grupo não-ocidental.
Especialistas como Devika Misra e Zeno Leoni argumentam que, apesar de críticas ao Ocidente, o bloco não tem uma agenda unificada contra ele, dado os laços de vários membros com países ocidentais. No entanto, episódios como a neutralidade diante da invasão russa à Ucrânia e o apoio ao Irã após ataques de Israel e EUA alimentam críticas sobre um suposto viés antiocidental.
A entrada do Irã, facilitada por seus laços com China e Rússia, também é apontada como fator de tensão. Para Ana Paula Garcia, esses eventos recentes dão combustível para alegações de que os Brics caminham para uma postura mais crítica ao Ocidente, mesmo que o bloco mantenha oficialmente um discurso de reforma e inclusão internacional.