Mauro Cid, tenente-coronel e delator da trama golpista, afirmou à Polícia Federal que advogados ligados a Jair Bolsonaro tentaram obter informações sobre sua delação junto a familiares.
O depoimento, prestado na terça-feira (24), integra inquérito que apura se advogados de réus buscaram atrapalhar investigações sobre a suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, a PF ouvirá advogados do ex-presidente diante de indícios de obstrução de Justiça.
Depoimento e alegações de Mauro Cid
Durante o depoimento à Polícia Federal, Mauro Cid relatou que advogados de réus da trama golpista, incluindo defensores de Jair Bolsonaro, buscaram informações sobre sua delação premiada diretamente com seus familiares. Segundo Cid, essas tentativas ocorreram entre o segundo semestre de 2023 e o início de 2024.
O ex-ajudante de ordens afirmou que advogados tentaram invalidar sua delação alegando que ele teria divulgado informações sigilosas em um perfil falso nas redes sociais. Cid negou ter criado o perfil Gabrielar702 e também rejeitou ter tratado do acordo de colaboração com o advogado Eduardo Kuntz, defensor de Marcelo Câmara.
Ele relatou ainda que foi gravado sem autorização e que áudios atribuídos a ele foram editados e recortados. Sobre uma foto apresentada como prova, Cid afirmou que se tratava de um arquivo vazado.
Visitas e contatos com familiares
Mauro Cid detalhou que recebeu visitas na prisão, em maio de 2023, de Eduardo Kuntz e Fábio Wajngarten, que atuava na defesa de Bolsonaro. Posteriormente, encontrou Kuntz em um evento na Hípica de Brasília, local frequentado por sua família, considerando o encontro fortuito.
Segundo o depoimento, advogados também tentaram se aproximar de suas filhas, esposa e mãe. O relatório aponta que Kuntz e Wajngarten mantiveram contato constante com sua filha menor, G.R.C., por WhatsApp e Instagram, com o objetivo de se aproximar de Cid por meio dela.
Repercussão e próximos passos
Mauro Cid afirmou que o contato com sua mãe ocorreu pessoalmente em pelo menos três ocasiões, durante eventos esportivos na hípica. Em uma dessas abordagens, Paulo Bueno, advogado de Jair Bolsonaro, também estava presente e os advogados se colocaram à disposição para atuar em sua defesa.
O depoimento de Cid faz parte de um inquérito que apura possíveis estratégias de obstrução de Justiça por parte das equipes de defesa dos investigados na suposta tentativa de golpe. A Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, irá ouvir os advogados citados para esclarecer as circunstâncias dessas abordagens e possíveis tentativas de interferência nas investigações.
O caso traz à tona discussões sobre a atuação de advogados em processos de colaboração premiada e o limite ético das estratégias de defesa, especialmente quando envolvem familiares de delatores.