Familiares de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens e delator, denunciaram à Polícia Federal abordagens insistentes de advogados ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo depoimentos, os advogados buscavam uma defesa conjunta e chegaram a contatar a filha menor de idade do delator.
Os relatos foram entregues ao Supremo Tribunal Federal em 23 de junho, dentro de notícia-crime apresentada após tentativas de anular a colaboração premiada de Cid.
Relatos de abordagens e pressão por defesa única
De acordo com Agnes Cid, mãe de Mauro Cid, advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro tentaram, por diversas vezes entre agosto e dezembro de 2023, convencê-los a trocar de defensores e adotar uma defesa única para todos os envolvidos. Agnes relatou que o advogado Eduardo Kuntz, defensor de Marcelo Câmara, a procurou três vezes, inclusive durante uma competição de hipismo em São Paulo, onde estava a filha de Cid. Na segunda abordagem, Kuntz estava acompanhado de Paulo Bueno, advogado de Bolsonaro.
Segundo Agnes, os advogados se ofereceram para defender Mauro Cid e afirmaram serem amigos. Ela descreveu as tentativas como constrangedoras, pois sabia que o objetivo era unificar a defesa dos investigados.
Contato com filha menor de idade
Gabriela, esposa de Cid, também relatou que Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro, fez diversas ligações insistentes, inclusive para a filha de 14 anos do casal. Gabriela afirmou que só atendeu após pedido da filha, que também era alvo dos contatos. Wajngarten teria sugerido que havia advogados melhores para defender Cid.
Gabriela gravou uma das ligações para se resguardar, mas posteriormente apagou o áudio, temendo não estar agindo corretamente.
Depoimentos e investigação sobre tentativas de obstrução
Mauro Cid negou ter mantido conversas com Eduardo Kuntz, como sugerido por mensagens do perfil “Gabrielar702”, e afirmou desconhecer a origem desse contato. Ele relatou que Kuntz tentou se aproximar de sua filha menor de idade usando temas ligados ao hipismo, esporte praticado pela jovem, entre agosto de 2023 e início de 2024.
Segundo Cid, não havia motivo para Kuntz manter contato frequente com sua filha, já que não tinham relação próxima. Ele acredita que o objetivo era obter informações sobre o acordo de colaboração premiada e, assim, tentar obstruir as investigações em andamento, aproveitando-se da inocência da adolescente.
Os advogados de Cid detalharam que Kuntz teria sugerido à filha do delator que apagasse mensagens do celular semanalmente, prática que ele mesmo dizia adotar. A defesa de Cid entregou o telefone da filha para perícia e solicitou que a Ordem dos Advogados do Brasil investigue possíveis infrações éticas cometidas por Kuntz e Fábio Wajngarten.