Documentos produzidos por uma estrutura paralela dentro da Abin foram utilizados por Jair Bolsonaro em uma live realizada em 4 de agosto de 2021, onde o então presidente fez críticas ao sistema eleitoral e defendeu o voto impresso.
Segundo a Polícia Federal, o material foi criado por servidores públicos, inclusive o então diretor Alexandre Ramagem, sem registro formal ou vínculo com atividades legítimas de inteligência.
Detalhes da investigação da Polícia Federal
O relatório entregue ao Supremo Tribunal Federal detalha que os arquivos analisados foram elaborados dentro da chamada “Abin paralela”. Entre eles, destaca-se o documento “Presidente TSE informa.docx”, criado por Alexandre Ramagem em 27 de julho de 2021, utilizando seu e-mail pessoal e sem qualquer registro nos sistemas oficiais da agência.
A Polícia Federal aponta que o arquivo foi criado e modificado entre 10 e 27 de julho de 2021, sendo localizado nos dispositivos eletrônicos de Ramagem. Não há registro de ordem de inteligência vinculada ao documento, e seu conteúdo não possuía lastro técnico ou comprovação, sendo classificado como insumo político.
O material foi salvo de forma isolada, fora do fluxo documental da Abin, e preparado sem controle ou supervisão formal. Parte dele foi compartilhada via WhatsApp com interlocutores ligados ao vereador Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente.
Repercussão e conclusões do relatório
O relatório afirma que os documentos foram usados diretamente na live transmitida nos canais oficiais de Jair Bolsonaro. A transmissão também exibiu trechos do Inquérito Policial nº 1361/2018, da própria Polícia Federal, que estava sob sigilo. Segundo a investigação, a Abin havia requisitado esse inquérito por meio de pedido de inteligência, e os dados foram reaproveitados sem autorização judicial.
Os investigadores concluem que os documentos não faziam parte de missão oficial da agência, mas de uma estrutura paralela criada para atender interesses políticos do governo. O conteúdo, preparado fora dos sistemas oficiais, foi direcionado para alimentar ações públicas e campanhas de desinformação sobre o sistema eleitoral, fora do escopo legal da atividade de inteligência.