O ministro Nunes Marques será eleito nesta terça-feira (14) presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assumindo o comando da Corte responsável por organizar as eleições gerais de outubro de 2026.
Ele sucede a ministra Cármen Lúcia e terá o ministro André Mendonça como vice. Ambos foram indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — o mesmo que passou anos atacando as urnas eletrônicas sem apresentar provas e cuja conduta o STF classificou como parte de uma tentativa de golpe em 2022.
Credibilidade como bandeira de gestão
Em avaliações reservadas, Nunes Marques avalia que a defesa intransigente da integridade do sistema eletrônico de votação dará maior credibilidade ao TSE — e terá impacto especialmente nos setores do eleitorado mais próximos a Bolsonaro. A lógica é ao mesmo tempo política e institucional: mostrar que ministros indicados pelo ex-presidente não irão questionar as urnas.
Para 2026, o TSE já anunciou mudanças no protocolo de auditorias: os partidos poderão escolher qual equipamento desejam avaliar, prerrogativa que antes cabia exclusivamente à Justiça Eleitoral. A meta é retirar urnas com falhas antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, evitando substituições emergenciais no dia da votação.
O histórico de abstenções também preocupa o novo presidente. Em 2022, cerca de 31 milhões de eleitores — 20% do eleitorado — não compareceram às urnas no primeiro turno, o maior percentual desde 1998. Nunes Marques quer discutir com ministros e sua equipe medidas concretas para reverter esse quadro.
Tecnologia, IA e inclusão indígena
O ministro planeja firmar convênios com universidades e instituições especializadas em cibersegurança para revisar e fortalecer os protocolos da Justiça Eleitoral. Outra novidade para 2026 é a proibição de publicar ou republicar conteúdos gerados ou alterados por inteligência artificial nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas seguintes.
Nunes Marques também quer ampliar a participação dos povos indígenas no processo eleitoral, com ações de capacitação e maior circulação de informações. Em fevereiro, o ministro esteve em Belém para audiência pública que discutiu a inclusão de povos originários e grupos minoritários — e onde foram debatidas regras para as eleições deste ano.
O novo presidente do TSE assume o posto em meio a um contexto institucional delicado. O STF reconheceu que os ataques de Bolsonaro ao sistema eleitoral integraram uma ação coordenada de tentativa de golpe em 2022 — o que torna simbólica a missão de dois ministros bolsonaristas à frente da Corte eleitoral nas vésperas de um novo pleito presidencial.
A trajetória recente de Nunes Marques, porém, carrega episódios que complicam o discurso de isenção. Em abril, veio a público que o ministro viajou em jato particular custeado por uma advogada do Banco Master — empresa cujos interesses ele julga no STF —, acirando o debate sobre os padrões éticos exigidos de quem presidirá o tribunal mais sensível do país em ano eleitoral.
No próprio TSE, o ministro já havia sinalizado independência de postura: foi o único a votar contra a cassação do ex-governador Cláudio Castro, em março, mantendo o placar em 2 a 1 pela cassação, mas expondo divergências internas que devem marcar sua gestão.
Com a saída de Cármen Lúcia do TSE, o ministro Dias Toffoli passará a ocupar a terceira cadeira reservada ao STF na Corte, completando a nova composição que acompanhará todo o ciclo eleitoral de 2026.
